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'Glass Onion: Um Mistério Knives Out' traz de volta o detetive Benoit Blanc

Sequência do filme de mistério de 2019 é siimultaneamente mais descompromissada e mais épica do que o original

Por André Guerra

Desde o aclamado Assassinato em Gosford Park, o cinema de mistério à moda Agatha Christie vinha passando por um hiato de quase duas décadas, sobretudo entre as produções originais — o que mudou em 2019 com o lançamento de Entre Facas e Segredos, seguramente um dos maiores sucessos da história do subgênero whodunnit (“quem matou?”). O diretor e roteirista Rian Johnson — mais conhecido até então pelo divisivo Star Wars VIII: Os Últimos Jedi — comandou o projeto estrelado por um grande elenco, encabeçado por Daniel Craig no papel do detetive Benoit Blanc, com uma trama que subvertia, em tom de homenagem, vários cânones da investigação tradicional.



Após os excelentes números do filme original, foram anunciadas duas sequências a serem lançadas diretamente no catálogo da Netflix. A primeira delas, já disponível na plataforma e em primeiro lugar no mundo todo, é Glass Onion: Um Mistério Knives Out, que conta novamente com direção e roteiro de Rian Johnson.

A trama funciona como um episódio isolado, não exigindo conhecimento prévio do longa anterior, e acompanha o detetive Benoit Blanc, desta vez misteriosamente convidado, juntamente com personalidades ricas, para uma viagem a uma excêntrica ilha onde mora Miles (Edward Norton). O anfitrião resolve reunir seu antigo grupo de amigos para relembrar os velhos tempos e, no curso de um fim de semana, participar de um jogo destinado a descobrir o responsável pelo seu próprio assassinato.

Mesmo que encontre sua parcela mínima de suspense, o foco de Glass Onion é a brincadeira (a própria premissa do jogo já vem carregada de autoconsciência), mas, curiosamente, nunca cai na paródia absoluta. Os suspeitos da vez são ainda mais caricatos do que no primeiro filme, o que confere ao longa uma despretensão adequada às suas limitações dramáticas. A direção de arte conta literalmente com uma enorme cebola de vidro que, numa metáfora repetidamente explicada no filme, representa um caso de aparente complexidade devido às suas camadas, cujo centro é cristalino em sua obviedade.

A estrutura, por outro lado, é menos linear e mais intrincada nesta sequência, que frequentemente alterna pontos de vista e questiona informações que a própria câmera apresenta. Ainda que o roteiro amarre bem suas pontas, algumas informações soam supérfluas ao longo das mais de duas horas de duração, e muitas revelações são feitas por meio do truque fácil do flashback, sem necessariamente apresentar pistas sólidas ao espectador. O comentário social da vez, novamente envolvendo a frivolidade e o oportunismo da elite, oferece sucessivos insights cômicos (a máscara transparente e a vacina na língua são ótimos exemplos), mas torna-se demasiadamente didático no desfecho da trama.

O ritmo e as subversões do gênero, porém, mantêm-se afiados, e as surpresas se expandem para além da simples descoberta do assassino. Janelle Monáe, cantora e atriz de boa presença, ganha destaque a partir da grande guinada reservada pela narrativa e, tal como Ana de Armas em 2019, compõe um belo duo de interpretações ao lado da persona centralizadora e carismática de Daniel Craig. Ao final, sobra o gosto de 'quero mais' por um terceiro episódio.