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'Armageddon Time' é amontoado de obviedades que trata temática racial como acessório

Filme autobiográfico do diretor James Gray (de 'Ad Astra' e 'Amantes') mira em um comentário crítico, mas se revela eticamente comprometido

Por André Guerra

Durante 1980, ano marcado pela transição do então governo de Jimmy Carter para Ronald Reagan, nos Estados Unidos, o jovem Paul (Banks Repeta) parece cada vez mais desinteressado da sala de aula e cultiva aspirações de se tornar um artista plástico famoso, mesmo com seus pais insistindo na importância de ir para a faculdade. Vindo de uma família judia de classe média-alta do Queen, em Nova York, ele tem parte da rotina alterada com o desenrolar de sua amizade com Johnny (Jaylin Webb), um dos poucos alunos negros da escola, com quem compartilha sonhos e infrações.

Mais um grande nome do cinema a entrar na tendência atual da autobiografia nostálgica (a exemplo de Roma e Belfast, além do ainda por estrear Os Fabelmans), James Gray faz de Armageddon Time, em cartaz, um exercício de idealização do passado misturado com ‘mea culpa’ dos socialmente favorecidos. Explorando esse gênio criativo e desafiador de Paul, o longa estabelece uma atmosfera inicial de acolhimento. Os problemas que nascem do universo familiar do protagonista (alter ego do cineasta) são sempre confrontados com a rede de apoio emocional, financeiro e, eventualmente, logístico que ele tem, em contraste com o absoluto desprovimento das mesmas coisas enfrentado por Johnny, cujos anseios por mudar de vida não são tão diferentes.

Conhecido por filmes de máfia trágicos (Caminho sem Volta, Os Donos da Noite) e melodramas românticos (Amantes, Era uma Vez em Nova York), o diretor retorna ao cenário novaiorquino habitual para explorar suas memórias e revisitar elementos essenciais da sua formação, escolhendo não se expandir muito além das relações com o amigo e com a família, possivelmente a fim de que o contorno geral do projeto se mantenha focado mais no registro afetivo e menos nos pretensos comentários socioeconômicos.
 
Essa contenção faz parte de quase toda a obra de James Gray, cultuado por seu costumeiro rigor classicista e sobriedade dramática, mas aqui, pela primeira vez, ela acaba puxando para um caminho excessivamente convencional e frequentemente desajeitado, tanto na forma quanto no conteúdo.

O olhar pré-adolescente que norteia o filme se faz coerente nas câmeras baixas e no cuidado com que ele localiza o espectador nos ambientes-chave da história (filmados num tom de sépia que remete a um álbum de fotografias bem preservado e higienizado). O ponto de vista infantil, porém, não justifica a maneira domesticada e romantizada com que Armageddon Time lida com seus conflitos mais carregados, que às vezes parecem surgir arbitrariamente e sem deixar vestígios emocionais visíveis nos personagens, ao exemplo de uma constrangedoramente artificial cena de violência paterna.

Interpretações sólidas como as de Anthony Hopkins (o avô) e Anne Hathaway (a mãe) ficam responsáveis por verbalizar um texto que, em essência, é recheado de platitudes, enquanto o trabalho do novato Jaylin Webb é relegado ao problemático papel de acessório narrativo para discutir racismo, afinal, seu personagem tem muito mais a acrescentar na jornada de amadurecimento de caráter do protagonista do que na própria história.
 
É muito provável que, do seu lugar privilegiado de diretor, James Gray tenha tido a intenção de expor essa ambiguidade entre o afeto pelo conforto da instituição familiar - fator onipresente em sua filmografia - e a sensação de culpa pelas oportunidades que ela ofereceu na sua vida. O resultado de Armageddon Time, no entanto, é maculado exatamente por esse privilégio: por mais empatia que se tenha pelo outro, é sempre mais fácil enxergar o seu mundo do modo como ele sempre lhe pareceu.