{{channel}}
O mundo estava precisando desse filme, diz filha de Rubens Paiva sobre Ainda Estou Aqui
Durante a vinda da CEMDP ao Recife, o Diario conversou com Vera Paiva, filha mais velha de Rubens Paiva, um dos desaparecidos políticos
Quem já assistiu ao filme Ainda estou aqui se emocionou com a história de luta e resiliência de Eunice Paiva e seus cinco filhos em busca do paradeiro do marido, o ex-deputado federal e engenheiro Rubens Paiva, que acabou torturado e morto pelo Regime Militar e se tornou um dos nomais mais conhecidos entre os desaparecidos políticos do período da Ditadura. E a luta continua até hoje. A filha mais velha do casal, a professora titular da USP Vera Paiva, tornou-se membro da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). Em entrevista concedida ao Diario, Vera falou sobre a importância do filme que retrata a época do desaparecimento do pai e que não concordou com o presidente Lula, que vetou, ano passado, cerimônias alusivas aos 60 anos do Golpe Militar no Brasil. "O fato de a gente apoiar não significa que fazemos isso sem crítica", disse.
Diario de Pernambuco - O que representa a retomada dos trabalhos da comissão neste momento?
Essa volta demorou, né? Teve um conjunto de pressões, porque os caras tentaram dar o golpe várias vezes. E agora a gente sabe que tentaram matar o presidente, matar gente do Supremo. Mas o nosso papel de movimento social não é ir para casa, é fazer análise de conjuntura e, mesmo que sejam 15 pessoas na frente do Palácio do Planalto, como a gente era, temos que marcar e manter a insistência naquilo que a gente acha correto. Não faltam exemplos nesse mundo de que vale a pena você insistir. Até que finalmente virou a curva e foi reinstalada a comissão no ano passado.
DP - O ano passado também era a marca de 60 anos do golpe militar, mas o presidente Lula (PT) vetou a promoção de cerimônias em alusão à data. Como foi para você isso?
Foi horrível. Não gostei. Não gostamos, embora eu seja lulista. Eu votei no Lula. Ele sempre foi um bom presidente, mas o fato de a gente apoiar não significa que fazemos isso sem crítica. Eu acho que este governo está em um momento difícil. Tem várias coisas boas, boas notícias, mas parece que não aparece desse jeito porque a gente não disputa as narrativas. A precarização do trabalho e da vida foi de tal monta que, mesmo as pessoas ganhando um pouco mais, comendo um pouco mais, a sensação de precariedade não vai embora.
Eu adoro a proposta da escala 5 por 2. Não sei por que esse governo não adotou. Uma pauta forte desapareceu.
DP - Em sua fala na apresentação da comissão, você falou da importância de não esquecer o período do regime. Você sente que há um risco de esquecimento do que foi esse período?
Sim. As pessoas esquecem porque elas têm que sobreviver. É aquela cena do filme, de 'vamos continuar sorrindo', da minha mãe, e que foi aquilo mesmo, ela dizia aquilo. Tem que continuar a vida. Pensa quantas Eunices tem na periferia o tempo inteiro.
O que eu quero chamar a atenção é que nós todos somos afetados, mas todo mundo continua vivendo. O cotidiano das pessoas é de 'Toca a vida porque a vida é ruim'. A grande questão é a gente não transformar isso na impossibilidade definitiva de dizer que esse é um destino imutável, que é o que eles tendem a fazer com a gente. 'O papel do negro é esse e acabou, o papel da mulher é esse e acabou, o papel do indígena é servir ao branco' e transmitir isso aos seus descendentes, sem ele poder levantar a cabeça e mudar o mundo de outra maneira.
DP - Podemos dizer que o filme Ainda Estou Aqui (2024) é muito sobre família, retratando como sua mãe, você e seus irmãos lidaram com o desaparecimento de Rubens Paiva na ditadura militar. Entretanto, temos observado como movimentos que pedem a volta do regime militar levantam a bandeira da família. Como você analisa isso?
Eu fico brava com essa história, é irritante. Por que ‘em nome da família’? Que família é essa? É a família deles, que pensa como eles? Que tem uma religiosidade como a deles? Religiosidade essa que na minha opinião é falsa.
A minha família é religiosa. Nem todo mundo, mas eu sou e minha mãe era. No auge do Alzheimer da minha mãe, ela sempre queria ir à missa. A hora do Pai Nosso, em que todo mundo levanta, dá as mãos, é a hora que ela mais gostava. Ela dava as mãos e sempre gritava assim: 'Meu Cristinho, que morreu torturado na cruz, como meu marido'. E repetia: 'Morreu torturado, como meu marido, meu Cristinho.'
Então, como alguém que se diz cristão é a favor da tortura? Como alguém que acompanha a história de Cristo e o modo como ele pensava a família, acha que a família tem que ser só daquele tipo. Não tem nada a ver com Cristianismo.
A gente tem que recuperar a palavra 'Família', porque nós somos família também. Não importa a definição de família. Se não te faz mal, se não vai te agredir, por que implicar com a diversidade das famílias e por que usar o termo anti-família para nós? Ou anti-pátria, antirreligiosidade? Nós não somos. Inclusive, 90% dos familiares de presos mortos e desaparecidos são religiosos.
DP - Você acredita que esse filme saiu em um momento importante?
Sim, houve uma sincronicidade. As pessoas estão falando sobre ele em um momento que o mundo está precisando disso. Você tem a história sobre a importância da memória, necessária não só aqui, mas na Espanha, as pessoas também estão vendo isso em Portugal. E também é o momento de ameaça à democracia e crescimento fascista, com esse louco desse Trump. É um filme que vale a pena ver.
DP - E quantas vezes você já viu o filme e quais as sensações que sentiu?
Eu vi a primeira vez na minha casa, numa tela de TV, não estava acabado ainda. Eles tinham medo que a gente só visse pela primeira vez em Veneza. Eu saí da sala na hora que começa a cena do DOI-CODI. Falei que não queria ver e fiquei fumando do lado de fora. Então, essa primeira vez eu me ‘dessensibilizei’. De repente, eu vi que dava para assistir. De um modo delicado, ele [Walter Salles] deu o recado sem criar cenas desnecessárias. Não precisa você ter vivido aquilo para imaginar o que estava acontecendo.
E o filme faz um corte importante do livro [Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva], porque toda a parte do Alzheimer é importante. Aquela cena maravilhosa, perfeita, da Fernanda Montenegro, que é muito punk, que você sai do filme chorando. E todo mundo sai para poder contar a história e resistência da minha mãe, e que todos nós aprendemos a ter.
Na segunda vez, em Veneza, eu vi no telão, do lado dos atores. Foi muito emocionante. Aí eu vi cenas que eu não tinha reparado. É um filme muito sutil. Me emocionei. E teve aplauso, que é para eles, não é para nós, porque só vivemos.
E vi uma terceira vez na estreia em São Paulo, também no telão, e vi coisas que não tinha visto. Cada hora você presta atenção em outros detalhes.
DP - A família vai se reunir para acompanhar a cerimônia do Oscar?
Não. É no meio do Carnaval e alguns da família moram na Europa. Minha família não mora em São Paulo, só eu e o Marcelo. O Marcelo vai para um lugar com os filhos, porque vai com as crianças, e eu vou para outro lugar.
DP - Mas você vai estar assistindo?
Claro que nós vamos assistir. Vamos estar nos falando, onde quer que estejamos. E torcendo, porque a Fernanda [Torres] merece, o Walter merece. E acho que merece o melhor filme, seja estrangeiro ou não. Eu acho que é a arte pura.