Israel corta relações com o secretário-geral das Nações Unidas
A suspensão foi anunciada pelo embaixador israelense na Organização das Nações Unidas, Danny Danon
O embaixador israelense na Organização das Nações Unidas, Danny Danon, anunciou a suspensão das relações com o secretário-geral da organização, António Guterres, devido a uma suposta inclusão, ainda não tornada pública, de inscrever Israel numa 'lista negra' de responsáveis por violência sexual em conflitos.
"Estamos fartos desse secretário-geral. A decisão de incluir Israel na lista e nos acusar de usar violência sexual como arma de guerra é ultrajante. O secretário e sua equipe continuam espalhando mentiras contra Israel para nos colocar, juntamente com os terroristas do Hamas, na mesma lista. Isso é inaceitável", declarou Danon, esclarecendo que a missão israelense ‘congelou’ suas relações com o gabinete de Guterres até o final de seu mandato, em 31 de dezembro de 2026.
A ONU não confirmou a informação e até o momento não se pronunciou.
A decisão do governo israelense surgiu logo depois de um artigo do jornal New York Times que reúne inúmeras entrevistas com homens e mulheres que relatam estupros, torturas sexuais e humilhações atribuídas a guardas prisionais, soldados, colonos e interrogadores de Israel. A reportagem foi assinada por Nicholas Donabet Kristof, jornalista e comentarista político norte-americano, vencedor de dois prêmios Pulitzer e colunista do jornal desde 2001.
De acordo com Danon, Israel convidou representantes das Nações Unidas para irem ao país verificar as acusações. "Eles optaram por não vir e preferiram continuar com a campanha contra Israel. Vimos à mentira no New York Times e agora vemos outra mentira vinda da ONU", argumentou, em referência ao texto publicado pela mídia que compilou as denúncias de violência sexual contra palestinos em prisões israelenses.
O serviço prisional israelense negou as acusações. "São falsas e inteiramente sem base factual. Todos os prisioneiros e detidos são mantidos de acordo com a lei, com toda consideração pelos seus direitos básicos e sob a supervisão de equipe prisional treinada e profissional", afirmou um porta-voz em comunicado.
Após a publicação do texto jornalístico, Israel divulgou um relatório de 300 páginas em que também acusa o grupo terrorista Hamas e outras facções palestinas de violência sexual sistemática e em larga escala durante o ataque de 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza.
“A decisão vergonhosa e absurda da ONU de incluir entidades israelenses no anexo do relatório sobre violência sexual relacionada a conflitos (CRSV, na sigla em inglês) é mais uma prova da verdadeira natureza da ONU: uma organização politizada e corrupta que abandonou seus princípios fundadores e tem como missão principal atacar sistematicamente Israel", acrescentou Oren Marmorstein, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel.
No entanto, recentemente a organização Global Sumud Flotilla, que busca realizar missões humanitárias à Gaza, acusou soldados de Israel de agressões, inclusive estupros, dos ativistas detidos na última tentativa da empreitada do grupo. Foram mais de 400 detidos de 40 nações estrangeiras, interceptados em águas internacionais, que ficaram sob custódia das forças israelenses num barco-prisão no porto de Ashdod, e posteriormente foram deportados para a Turquia. Diversos ativistas relataram denúncias de violência extrema, com torturas, espancamentos sistemáticos entre outros maus-tratos, além de pelo menos 15 deles terem delatado agressões e abusos sexuais, incluindo violação. Dois médicos portugueses contaram ainda que viram soldados israelenses baleando duas pessoas do grupo, além de presenciarem eles fraturarem membros de pelo menos 35 ativistas.
Um vídeo dos ativistas detidos foi divulgado na ocasião pelo ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, que mostrou ao mundo eles algemados, amontoados, sendo humilhados e obrigados a ajoelhar-se com a cara no chão. Nas imagens, o ministro celebrou a detenção, no qual aparece sorridente e acenando com a bandeira de Israel, dando boas-vindas e zombando. O incidente desencadeou indignação internacional e reações diplomáticas em toda a Europa, no Oriente Médio e no Brasil. A maioria dos governos convocou os embaixadores israelenses em seus países para prestar esclarecimentos sobre o episódio que classificaram de inaceitáveis e degradantes. Além de diversos países terem pedido ainda a União Europeia sanções contra Ben-Gvir e alguns sanções parciais a Israel. A Procuradoria de Roma abriu investigações sobre a interceptação e o tratamento dado aos ativistas italianos, levantando sérias acusações que incluem sequestro e tortura.
Além disso, em vídeos divulgados pela imprensa internacional no desembarque dos ativistas em Istambul, parte dos deportados foi deslocada em macas, muitos com colares cervicais e ligaduras, ao chegar à Turquia, e outros apresentavam marcas de feridas e hematomas que teriam sido resultado de violência praticada por soldados de Israel.
Em março de 2026, o Parlamento de Israel (Knesset) aprovou uma lei que estabelece a pena de morte por enforcamento para palestinos condenados em tribunais militares por ataques classificados como "atos de terrorismo". A medida é aplicada de forma diferenciada dependendo da jurisdição e da etnia do réu. A lei torna a pena de morte a sentença padrão para palestinos residentes na Cisjordânia ocupada que sejam julgados e condenados em tribunais militares por homicídio. Na prática, essa definição exime os cidadãos e colonos judeus israelenses, que também são julgados pelo sistema civil, onde a pena capital não é aplicada. A legislação, fortemente impulsionada por alas de extrema-direita, gerou críticas severas internacionalmente. Nações como a Alemanha, França, Itália e Reino Unido, além de organizações de defesa dos direitos humanos, denunciaram a medida como "de fato discriminatória" e um retrocesso nos padrões de justiça.
Em paralelo, o Knesset também aprovou recentemente uma lei que cria um tribunal militar especial para julgar palestinos acusados de participar dos ataques do Hamas. O projeto recebeu apoio tanto da coalizão governista quanto da oposição. O tribunal especial julgará suspeitos capturados durante ou depois do ataque liderado pelo Hamas, além de ainda julgar os acusados de manter ou abusar de reféns em Gaza. A imprensa israelense indicou que cerca de 400 pessoas serão levados a julgamento.