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UE e líderes condenam assédio e humilhação a ativistas da flotilha interceptada por Israel

A União Europeia classificou como 'completamente intolerável' o tratamento dado aos ativistas da flotilha para Gaza detidos por Israel

Por Isabel Alvarez

Flotilha Global Sumud

Após a interceptação por Israel em águas internacionais da Global Sumud Flotilha (GSF) em missão humanitária à Faixa de Gaza e a detenção dos ativistas, entre eles, médicos, jornalistas e pessoas de mais de 40 nações, que sofreram assédio e humilhação pelo ministro israelense da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, a União Europeia e vários líderes reagiram e denunciaram o seu comportamento, que consideraram inaceitáveis.

Ben-Gvir divulgou um vídeo em visita ao porto de Ashdod, onde os cerca de 430 ativistas estavam detidos, algemados, amontoados e obrigados a ajoelhar-se com a cara no chão. Nas imagens, o ministro celebra a detenção, no qual aparece sorridente e acena com a bandeira de Israel, dando boas-vindas e zombando deles.

A União Europeia (UE) classificou nesta quinta-feira (21) como completamente intolerável o tratamento dado aos ativistas da flotilha para Gaza detidos por Israel, após a divulgação do vídeo de Ben Gvir. "O tratamento dado aos ativistas da flotilha no vídeo partilhado pelo ministro Ben-Gvir é completamente inaceitável, como também foi sublinhado por membros do seu próprio Governo. Todas as pessoas detidas devem ser tratadas com segurança, dignidade e em conformidade com o direito internacional. Apelamos ao Governo israelense para que garanta a proteção e o tratamento humano destes ativistas, incluindo vários cidadãos da UE. Apelamos à libertação imediata de todos eles", afirmou o Serviço Europeu para a Ação Externa.

A Comissária europeia da igualdade, Hadja Lahbib, que compartilhou o vídeo divulgado por Ben-Gvir, enfatizou na rede social: “Estes não são criminosos condenados. São ativistas tentando levar pão aos famintos. O ativismo pacífico e a liberdade de reunião são direitos fundamentais. Os civis devem ser protegidos. Ninguém deve ser punido por defender a humanidade” escreveu.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, pediu a libertação imediata de qualquer cidadão italiano detido e exigiu um pedido de desculpas de Israel pelo tratamento infligido aos manifestantes. Hoje, o ministro das Relações Exteriores italiano, Antonio Tajani, disse que pediu à União Europeia sanções contra Ben-Gvir por atos inaceitáveis cometidos contra a flotilha, incluindo a captura dos ativistas em águas internacionais e o assédio e a humilhação a que foram sujeitos, em violação dos direitos humanos mais fundamentais.

O primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, defendeu a suspensão parcial de acordo da UE com Israel e também considerou a situação inadmissível, além de apoiar a proposta de Itália para a UE sancionar o ministro Ben-Gvir. “Dois médicos portugueses estão entre os detidos. Uma vez que esta ação de Israel, tal como a anterior de há umas semanas, foi feita em águas internacionais e, portanto, em violação do direito internacional, e dado que nós queremos garantir um tratamento de respeito absoluto pela integridade e pelos direitos fundamentais dos cidadãos em causa, convocamos hoje mesmo para o ministério o embaixador de Israel para fazermos o nosso protesto e para exigirmos esse tratamento e a reposição da legalidade internacional assim que possível", afirmou o chanceler de Portugal, Paulo Rangel.

A Ordem dos Médicos do país manifestou que é preciso a devida observância da legislação internacional, ao abrigo da Convenção de Genebra e das normas da Associação Médica Mundial, no sentido de acionar todos os mecanismos diplomáticos necessários ao regresso seguro dos dois cidadãos portugueses. "Os médicos devem ser protegidos e respeitados em todas as circunstâncias. Nunca podem ser alvo de violência, intimidação ou qualquer forma de condicionamento, independentemente do contexto político ou militar", diz a nota da entidade.

O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, convocou o embaixador israelense e reiterou que as ações do ministro eram inadmissíveis independentemente da opinião que se tenha sobre esta flotilha. A Holanda, Canadá, Bélgica e Eslovênia também convocaram os embaixadores israelenses, e classificaram o tratamento como "chocante" e "profundamente perturbador". Enquanto, o ministro das Relações Exteriores polonês, Radoslaw Sikorski, pediu nesta quinta-feira que seja proibida a entrada na Polônia de Ben-Gvir, assim como os Países Baixos, o Reino Unido, Irlanda e Espanha, que já adotaram essa proibição.

O secretário dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido afirmou estar verdadeiramente consternado e exigiu explicações ao governo de Tel Aviv. Já o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, garantiu que não tolerará maus-tratos aos cidadãos espanhóis que estavam na flotilha e reforçou que vai pedir a UE sanções urgentes.

Por sua vez, a Turquia denunciou Israel pela violência verbal e física. O chanceler turco apontou que as imagens do vídeo mostram abertamente, ao mundo inteiro, a mentalidade violenta e bárbara do governo de Benjamin Netanyahu.

Quatro brasileiros estavam a bordo da Flotilha Global Sumud, que disseram fazer parte de uma missão legítima para romper o "cerco ilegal" a Gaza. Eles também acusaram Israel de realizar a interceptação de maneira violenta. O governo do Brasil repudiou a interceptação e deplorou o tratamento degradante e humilhante dispensado por autoridades israelenses aos participantes da missão, assim como exigiu a libertação do grupo.

Apesar das reações de condenação por parte de diversos países, o Ministério das Relações Exteriores de Israel acusou o Hamas de envolvimento direto na Global Sumud e financiamento das flotilhas, com base em documentos alegadamente encontrados em Gaza durante a invasão do enclave palestino. A organização nega e assegura que o seu financiamento provém de donativos privados. Netanyahu confirmou a intercepção pelas forças israelenses de uma nova "flotilha para Gaza", ao lago da costa de Chipre, acusando-a de ser uma iniciativa maliciosa por pretender quebrar o bloqueio que Israel diz impor aos terroristas do Hamas.

O primeiro-ministro comunicou que Israel tem todo o direito de impedir que flotilhas provocatórias de apoiadores terroristas do Hamas entrem em suas águas territoriais e cheguem a Gaza, no entanto disse que o modo como o ministro Ben-Gvir lidou com os ativistas da flotilha não está de acordo com os valores e normas de Israel. Entretanto, ao se dirigir ao comandante naval israelense responsável pela operação, segundo um comunicado do seu gabinete, considerou a intervenção um sucesso notável, ordenando a mesma a prosseguir até ao fim.

Mas, o chefe da diplomacia israelense, Gideon Saar, foi categórico em relação a Ben-Gvir na rede social X. “O senhor causou deliberadamente danos ao Estado com esta atuação vergonhosa, e não é a primeira vez... Não, não representa Israel", frisou.

Depois da indignação internacional e a repercussão extremamente negativa do incidente, Israel acabou de anunciar que expulsou os ativistas estrangeiros.

 

Terceira tentativa num ano de uma flotilha chegar à Gaza


Os ativistas da Global Sumud denunciaram esta semana a interceptação por forças israelenses, de uma flotilha de mais de 50 barcos, oriundos da Turquia, que transportavam ajuda humanitária para Gaza, que se encontra numa situação catastrófica apesar do ‘cessar-fogo’. Os navios foram interceptados em águas internacionais, a 250 milhas náuticas a oeste de Chipre. A GSF declarou que a sua frota foi abordada no que chamou de "mais uma agressão ilegal em alto-mar", a cerca de 460 km de Gaza, que está sob bloqueio marítimo israelense.

No mês passado, as forças israelenses interceptaram 22 barcos da mesma flotilha perto de Creta. Nesse incidente, foram detidos 181 ativistas a bordo, dos quais todos, exceto dois, foram libertados na ilha grega no dia seguinte. “As embarcações militares interceptaram a flotilha de forma ilegal e violenta e as forças israelenses abordaram as embarcações sequestrando os voluntários. Exigimos a libertação imediata dos ativistas e o fim do bloqueio a Gaza", diz a mensagem da GSF.

Esta foi à terceira tentativa em um ano de romper o bloqueio israelense imposto a Gaza, que foi devastada pela guerra e enfrenta uma crise catastrófica.