° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Guerra no Sudão completa três anos com a pior crise humanitária do mundo

A situação no Sudão é descrita por organizações internacionais e líderes mundiais como a pior crise humanitária global da atualidade

Por Isabel Alvarez

Esta foto aérea mostra o Rio Nilo na capital Cartum, em 15 de abril de 2026, no terceiro aniversário do início da guerra entre o exército e seus inimigos paramilitares.

Nesta quarta-feira (15), a guerra civil no Sudão entre Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) completa três anos com a maior crise humanitária do mundo e o mais grave deslocamento populacional estimado em mais de 14 milhões de pessoas.

O atual conflito eclodiu devido a uma disputa de poder entre duas facções militares: as SAF, lideradas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, chefe do exército e atual governante do país após um golpe de Estado em 2021, e o seu ex-braço direito, Mohamed Hamdane Daglo, comandante do grupo paramilitar RSF. Os combates começaram na capital, Cartum, antes de se espalharem por outras regiões, como Darfur.

A situação no Sudão é descrita por organizações internacionais e líderes mundiais como catastrófica e a pior crise humanitária global da atualidade. Depois de três anos de guerra civil, o país esta mergulhado no caos e enfrenta uma combinação avassaladora de violência generalizada, miséria, fome severa e colapso de serviços básicos. A inação da comunidade internacional e a falta de financiamento substancial para ajuda humanitária agravou todas as condições do cenário dramático, que não apresenta ainda a possibilidade de uma solução pacífica.

O conflito já deixou milhares de mortos e feridos. As projeções mais recentes indicam que mais de 150 mil pessoas morreram devido o conflito direto e seus efeitos indiretos, como subnutrição, inanição e falta de assistência médica. Entretanto, algumas estimativas de enviados dos EUA já sugeriram que o número poderia ser ainda maior, aproximando-se de 400 mil em cenários de pior caso. Os relatórios apontam também mais de 40 mil feridos registrados, apesar de que este número seja considerado significativamente subnotificado por causa do colapso do sistema de saúde e bloqueios de comunicação.

Segundo o diretor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na região, Luca Renda, provavelmente, cerca de 38% da população vivia na pobreza, antes de abril de 2023, e, agora, estima-se que o número seja por volta de 70%. Segundo Luca, as áreas mais complicadas são Kordofan do Sul, agora o principal campo de batalha, e Darfur do Norte.

De acordo com o relatório publicado pelo PNUD e pelo Instituto de Estudos de Segurança (ISS, na sigla inglesa), quase sete milhões de pessoas caíram na extrema pobreza só em 2023, e os rendimentos médios baixaram para níveis de 1992. "Estes números não são abstratos, refletem famílias desfeitas, crianças fora da escola, meios de subsistência destruídos e uma geração cujas perspectivas estão diminuindo inexoravelmente", declarou Luca Renda.

o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) comunicou que as Investigações da Missão Internacional Independente de Inquérito da ONU para o Sudão e da Missão de Inquérito da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (ACHPR) da União Africana (UA) sobre a Situação dos Direitos Humanos no Sudão concluíram que as Forças Armadas Sudanesas e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido, assim como os seus aliados, são responsáveis por violações graves do direito internacional humanitário e dos direitos humanos de intensidade variável.

Entre as violações mencionadas estão assassinatos, detenções arbitrárias, tortura, violações sexuais e o uso generalizado de ofensivas indiscriminadas, incluindo ataques aéreos, bombardeios e ataques de drones em áreas densamente povoadas. Por outro lado, meios civis indispensáveis à sobrevivência, incluindo instalações médicas e mercados de alimentos, têm sido alvo constante de ataques, o que exacerba a crise humanitária já considerada catastrófica. Além disso, a ajuda humanitária vem sendo frequentemente alvo de ataque no país.

“Ao fim de três anos de conflito no Sudão, violações graves e generalizadas do direito internacional dos direitos humanos e do direito internacional humanitário continuam com intensidade e impunidade crescentes, cometidas pelas Forças de Apoio Rápido e pelas Forças Armadas Sudanesas, com a violência a atingir níveis profundamente alarmantes em todo o país", alertou a agência da ONU.

O ACNUDH especificou que as violações cometidas pelas RSF são particularmente generalizadas e sistemáticas e incluem saques, violência sexual e perseguição étnica. "A Missão de Inquérito da ONU considerou que crimes internacionais foram cometidos no Sudão. Constatou também que as RSF cometeram outros crimes de guerra, como crimes contra a humanidade de violação generalizada e violência sexual, perseguição e extermínio através da privação de alimentos, medicamentos e assistência humanitária", reforçou.

"Relativamente à tomada de Al-Fashir em outubro de 2025, a Missão de Inquérito da ONU estabeleceu um padrão flagrante de ataques baseados na identidade pelas RSF contra membros das comunidades Zaghawa e Fur, num padrão que ostenta as marcas de genocídio", condenou o ACNUDH.

Por sua vez, a missão da União Africana concluiu que estas violações graves equivalem a violações "do Direito à Vida, do Direito à Dignidade Humana, à Liberdade e Segurança da Pessoa, Liberdades Fundamentais, Liberdade de Movimento, Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, Violações contra Crianças, Violações de direitos coletivos dos povos (incluindo o direito à igualdade, à existência, à paz, segurança e desenvolvimento), Ataques a Grupos Vulneráveis e Violência Sexual Relacionada com Conflitos", citou.

Ao longo desses três anos de guerra, cerca de 14 milhões de pessoas foram forçadas a fugir, sendo que nove milhões permanecem deslocadas internamente e 4,4 milhões permanecem refugiadas em países vizinhos, segundo recentes dados da ONU.