Paquistão diz que ataques ao Afeganistão deixaram quase 300 mortos
O Ministério da Defesa do Afeganistão afirmou que 55 soldados paquistaneses foram mortos e que "vários outros" foram capturados vivos no ataque na fronteira
O Paquistão bombardeou, nesta sexta-feira (27), várias cidades do Afeganistão, incluindo a capital Cabul, e declarou "guerra aberta" ao país vizinho, em um agravamento da crise após vários dias de confrontos.
"Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é uma guerra aberta entre nós e vocês", afirmou o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, na rede social X.
Poucas horas depois, o porta-voz do governo afegão, Zabihullah Mujahid, expressou em uma entrevista coletiva o desejo de que "o problema seja resolvido por meio do diálogo".
Durante a manhã, jornalistas da AFP ouviram explosões e viram caças sobrevoando Cabul e Kandahar, uma grande cidade do sul do Afeganistão, país governado pelos talibãs desde que retornaram ao poder em 2021.
O porta-voz afegão afirmou aos jornalistas que ainda havia aviões paquistaneses "sobrevoando o espaço aéreo do Afeganistão".
As relações historicamente cordiais entre os países vizinhos sofreram um abalo nos últimos meses, com confrontos esporádicos.
O Paquistão, uma potência nuclear, acusa as autoridades talibãs de oferecerem cobertura a militantes armados que lançam ataques contra seu território, o que o governo do Afeganistão nega.
Arábia Saudita e Catar estão trabalhando para deter os confrontos entre Paquistão e Afeganistão, indicou à AFP uma fonte que acompanhava as negociações nesta sexta-feira.
Perto da importante passagem fronteiriça de Torkham, um jornalista da AFP observou disparos de artilharia a partir das 9h30 (2h00 de Brasília) desta sexta-feira.
Os combates alcançaram o campo de Omari, que abriga os repatriados afegãos perto do posto fronteiriço.
"As crianças, as mulheres e os idosos correram", disse Gander Khan, um repatriado de 65 anos, em pé diante de várias tendas.
"Vi sangue, (os tiros) feriram duas ou três crianças e duas ou três mulheres", declarou à AFP.
Zarghon, um repatriado de 44 anos que revelou apenas o primeiro nome, afirmou que duas ou três crianças desapareceram em meio ao pânico.
"Todos foram embora"
"Alguns deixaram seus documentos (...) Não levaram nem o dinheiro, nem a ajuda que tinham recebido. Por medo, todos foram embora", contou à AFP.
Na noite de quintafeira, as forças afegãs lançaram uma ofensiva na fronteira contra as tropas paquistanesas em resposta, segundo Cabul, aos bombardeios paquistaneses do fim de semana passado.
O ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, afirmou que os ataques desta sextafeira e outros recentes na província de Paktia são uma "resposta adequada" às ações do país vizinho.
Preocupados, Irã e China se apresentaram como possíveis mediadores do conflito.
O governo do Irã, que compartilha uma fronteira ao leste com Afeganistão e Paquistão - e está, por sua vez, envolvido em negociações para evitar um conflito com os Estados Unidos -, se ofereceu para "facilitar o diálogo".
As autoridades chinesas pediram às partes que mantenham a calma e atuem com moderação, para "alcançar um cessarfogo o mais rápido possível e evitar mais derramamento de sangue".
Relações muito tensas
Desde quinta-feira, os dois países apresentam versões contraditórias sobre a situação.
Segundo o porta-voz afegão Mujahid, as tropas afegãs mataram 55 soldados paquistaneses e capturaram dezenas. Ele disse ainda que as tropas afegãs registraram 13 vítimas.
O tenente-general paquistanês Ahmed Sharif Chaudhry afirmou que "274 membros do regime talibã e terroristas" foram eliminados, contra 12 soldados paquistaneses mortos.
Os números de vítimas divulgados pelos dois países são difíceis de verificar de forma independente.
O bombardeio das forças afegãs ocorreu após vários ataques aéreos paquistaneses no fim de semana passado nas províncias de Nangarhar e Paktia, após "recentes atentados suicidas" no Paquistão.
Desde os combates de outubro, que provocaram mais de 70 mortes dos dois lados, a fronteira terrestre permanece em grande parte fechada, exceto para os afegãos que retornam ao seu país.
Após um cessar-fogo inicial negociado pelo Catar e pela Turquia, várias rodadas de conversações foram organizadas, mas um acordo duradouro não foi alcançado.
O EI Khorasan, considerado um dos braços mais ativos da organização Estado Islâmico, opera nos dois países.
Quando retornou ao poder no Afeganistão, o movimento talibã impôs uma interpretação rigorosa da lei islâmica, o que priva as mulheres e as meninas do direito à educação e ao mercado de trabalho.