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Guerra da Ucrânia completa quatro anos

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky declarou que o líder russo não alcançou os objetivos de guerra

Por Isabel Alvarez

O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky

No dia em que se assinala o quarto aniversário da invasão russa da Ucrânia, a Praça Maidan, em Kiev, está repleta de bandeiras ucranianas que representam os cidadãos do país que morreram durante este período de conflito armado, o maior desde a II Guerra Mundial.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky declarou que o líder russo não alcançou os objetivos de guerra. "Putin não alcançou os seus objetivos. Não quebrou o povo ucraniano. Não ganhou esta guerra. Preservamos a Ucrânia e tudo faremos para alcançar a paz e para que a justiça seja feita. Queremos paz, uma paz forte, digna e duradoura", disse numa mensagem de vídeo publicada hoje nas redes sociais.

Zelensky também reforçou a resistência do seu povo e o direito dos ucranianos à sua defesa e à sua independência. "Não anulem todos estes anos, não desvalorizem toda a luta, a coragem, a dignidade, tudo o que a Ucrânia passou. Não podemos, não devemos entregar tudo isto, esquecer tudo isto, trair tudo isto", acrescentou, num apelo aos negociadores.


O conflito provocou uma grande destruição na Ucrânia e aproximadamente 20 mil crianças ucranianas foram raptadas pelas forças russas e separadas das suas famílias desde o início da invasão russa. Uma parte foi deportada para a Rússia ou para territórios ocupados pelas suas tropas. Somente dois mil foram repatriados. Oficialmente, Moscou afirma ter exilado estes menores para protegê-los dos perigos da guerra. O Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) estima que as baixas militares cheguem a quase a dois milhões de soldados, somando mortos, feridos e desaparecidos. Enquanto as Nações Unidas contabiliza cerca de 15 mil civis mortos. O CSIS aponta que a Rússia lidera o número de baixas militares, com quase 1,2 milhão, sendo 325 mil mortos. Já as forças ucranianas sofreram cerca de 600 mil baixas, com 140 mil mortos.

Além disso, segundo um relatório conjunto de Kiev, do Banco Mundial, da União Europeia e da ONU publicado ontem (23), a reconstrução pós-guerra custará cerca de 588 bilhões de dólares na próxima década.

Em Bruxelas, o Parlamento Europeu (PE) realizou uma sessão plenária extraordinária para marcar o quarto aniversário da guerra. A presidente do PE, Roberta Metsola, anunciou que assinou hoje formalmente o empréstimo de 90 bilhões de euros da UE para apoiar a Ucrânia.

Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, estão nesta terça-feira (24), em Kiev, para debater contribuições e prestar homenagens aos ucranianos em uma cerimônia memorial e ainda visitar uma infraestrutura energética bombardeada pela Rússia, antes de se encontrarem com Zelensky. Von der Leyen e Costa também participaram por videoconferência de uma reunião da Coligação dos Dispostos, que conjuga cerca de 30 países que apóiam a Ucrânia, convocada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, e pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. Os líderes do Reino Unido, França e Alemanha reafirmaram o seu compromisso inabalável para a paz na Ucrânia. Em uma declaração conjunta após a reunião, os dirigentes reiteraram que as fronteiras internacionais não devem ser alteradas pela força.

"Os líderes saudaram os esforços contínuos dos EUA nas negociações de paz, que devem envolver todas as partes relevantes, quando os seus interesses estão em jogo. A Coligação dos Países Dispostos deve disponibilizar-se a fornecer garantias de segurança em múltiplas camadas, que incluem uma força multinacional para a Ucrânia com o apoio dos EUA”, diz o comunicado em conjunto.

No entanto, na segunda-feira, devido à oposição da Hungria, os ministros das Relações Exteriores da União Europeia (UE) não conseguiram aprovar o 20º pacote de sanções contra a Rússia, preparado precisamente para assinalar o quarto ano do conflito. Von der Leyen disse que o bloco europeu pediu ao governo da Ucrânia para acelerar as obras de reparação do oleoduto Druzhba, que leva petróleo russo a alguns países da Europa Central. A reparação deste oleoduto é um dos pontos de contenção entre a UE e a Hungria, sobre o bloqueio na aprovação do novo pacote de sanções contra a Rússia.

 

Impasse nas negociações para um cessar-fogo


O último ano tem sido marcado por esforços diplomáticos para o fim da guerra. Mas, as negociações diplomáticas entre Kiev e Moscou, iniciadas em 2025 sob a mediação dos Estados Unidos, não conseguiram até ao momento interromper os intensos combates.

O exército russo, que ocupa cerca de 20%, da Ucrânia, bombardeia diariamente zonas civis e infraestruturas críticas, o que desencadeou recentemente, no meio de um inverno extremamente rigoroso, a pior crise energética do país. Milhares de pessoas estão sem energia e aquecimento, enfrentando temperaturas gélidas abaixo de zero.

Enquanto isso, as tropas russas continuam avançando lentamente nas linhas da frente nos últimos meses, especialmente na região do Donbass, o principal pólo industrial do leste da Ucrânia, epicentro dos combates e que o Kremlin reivindica como território anexado. As questões do Donbass e da central nuclear de Zaporizhia, a maior da Europa, ocupadas pela Rússia, permanecem sendo as questões sensíveis nas conversações.

Por sua vez, Zelensky recusa ceder à retirada de suas tropas dos territórios estratégicos que a Rússia não conseguiu capturar, e rejeita a exigência de Moscou de que a Ucrânia entregue 20% da região leste de Donetsk, assim como territórios nas regiões a sul de Kherson e Zaporizhia.

 


Kremlin diz que apoio do Ocidente agravou o conflito


O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou hoje que a decisão dos países ocidentais de intervir no conflito na Ucrânia fez com que este se tornasse um confronto muito mais amplo.

Peskov também afirmou que Moscou permanece aberta a alcançar os seus objetivos por meios políticos e diplomáticos. "Continuamos os nossos esforços para alcançar a paz, a nossa posição é muito clara e consistente. Agora tudo depende das ações do regime de Kiev. Muitos dos objetivos do Kremlin na Ucrânia foram atingidos, sendo o principal garantir a segurança das pessoas que vivem no leste da Ucrânia. Mas todos ainda não foram alcançados, e é por isso que a operação militar especial continua", disse.

O presidente russo, Vladimir Putin, acusou a Ucrânia de "sabotar" as negociações de paz com ataques contra a infraestrutura energética. “Os serviços de informação ucranianos e do Ocidente estão por detrás de vários ataques terroristas contra infraestrutura energética russa”, alegou.