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Beto Lago: 'As cotas dos principais estaduais: como estamos distantes!'

Números expõem a distância entre Pernambuco e os grandes mercados do futebol brasileiro

Por Beto Lago

Sede da Federação Pernambucana de Futebol (FPF)

As cotas
Não dá para competir assim. E não é força de expressão: é matemática básica. Enquanto outros estados transformam seus Estaduais em ativos comerciais relevantes, Pernambuco segue tratando o próprio campeonato como um torneio amador com discurso de grandeza. Vamos aos números, porque eles não mentem. No Paulista, os quatro grandes – Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos – recebem R$ 35 milhões cada apenas na primeira fase, com acréscimos no mata-mata. No Carioca, o Flamengo embolsa R$ 10 milhões, enquanto Fluminense, Botafogo e Vasco ficam com R$ 6,6 milhões. Os demais, R$ 2 milhões. Em Minas, Atlético e Cruzeiro levam R$ 5,8 milhões, e até o América recebe R$ 2,2 milhões. O Paulistão, disparado o Estadual mais rico do País, expõe mais o abismo: o Mirassol recebe o equivalente ao Flamengo, enquanto a Portuguesa embolsa mais que Fluminense, Botafogo e Vasco (R$ 7 milhões). Isso não é exagero. É mercado. É gestão. É produto bem vendido. Agora, olhemos para Pernambuco e aqui a comparação vira constrangimento. Os três grandes do Estado dividem R$ 1 milhão, o que significa R$ 333 mil para cada. Os outros cinco clubes rateiam mais R$ 1 milhão (R$ 200 mil por clube). A FPF informa que um terceiro milhão é usado para custeio geral da competição (logística, arbitragem e questões técnicas). O VAR? Só no mata-mata. Como se tecnologia fosse luxo, não necessidade. O discurso oficial não acompanha a realidade. O presidente Evandro Carvalho faz questão de exaltar os números de público e audiência, citando transmissões que superam 50 pontos, colocando o Pernambucano entre os campeonatos estaduais mais vistos do País. A pergunta é direta: se há audiência, paixão e consumo, por que não há dinheiro? Onde essa força se perde no caminho entre a tela da TV e o caixa dos clubes?

Paixão não paga folha salarial
O investimento total de R$ 3 milhões não sustenta a narrativa de um Estadual “grande nacionalmente”. Não adianta inflar o orgulho local com frases como “nosso campeonato é maior nisso ou naquilo”. Paixão não paga folha salarial, não quita dívidas e não estrutura clubes. Colocar o amor do torcedor como parte da cota é, além de injusto, um álibi perigoso para a incompetência comercial.

Abismo só aumenta
Pernambuco sempre foi um mercado difícil de ser invadido por clubes de fora. Isso é força cultural. Mas força cultural sem estratégia vira folclore. E, hoje, o futebol pernambucano vive exatamente isso: muita audiência, pouca gestão e nenhum retorno financeiro compatível. Sem mudar esse modelo, o abismo para outros estados só tende a aumentar e depois não adianta reclamar da falta de competitividade.

Maior share, maior cota
Claro que vão querer colocar outros Estaduais na comparação – como o Baiano e o Cearense. Pegando como exemplo o Estadual da Boa Terra: Bahia e Vitória devem receber algo em torno de R$ 1,2 milhão e o torneio é transmitido pela TVE, onde no ano passado houve picos de 61% de share no canal aberto.