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Análise: governo estuda liberar FGTS para conter de endividamento das famílias

Com 80,4% dos brasileiros endividados, medida é vista por especialistas como alternativa matemática para fugir dos juros altos

Por Mareu Araújo

Os juros para o cartão de crédito regular subiram 4,4 pontos percentuais. Foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

Os brasileiros estão ficando cada vez mais endividados. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a proporção de famílias com dívidas saltou de 77,1% em 2025 para 80,4% em março de 2026. Diante do recorde, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, apresentou, nesta terça-feira (7), ao presidente Lula um desenho com medidas contra o endividamento e considera o uso de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

A economista Amanda Aires avalia que o uso do FGTS para quitar dívidas, caso o governo federal autorize, faz sentido. Do ponto de vista financeiro imediato, a conta é simples: o FGTS rende em torno de 3% ao ano, enquanto os juros de dívidas bancárias podem ultrapassar 3% ao mês.

"Faz muito sentido pagar com o FGTS. Não faz sentido manter uma dívida com juros de mais de 100% ao ano quando o fundo rende quase nada parado", explica a economista.

O FGTS é um dos principais direitos trabalhistas no país e funciona como uma poupança compulsória cuja função é proteger o trabalhador demitido sem justa causa. O Fundo de Garantia pode ser sacado para a compra da casa própria ou em caso de doenças graves.

"O uso FGTS para pagar uma dívida é uma desvirtuação da função do Fundo, mas faz sentido para poder dar uma reduzida nos níveis de endividamento das famílias, é uma alternativa”, avalia a economista.

No entanto, Amanda alerta que o uso dessa poupança para quitar débitos requer alguns cuidados. “É uma operação em que nós temos que levar em consideração os riscos porque a pessoa fica sem possibilidade de ter recurso em uma eventual demissão. Usar o FGTS é uma boa solução, mas não é uma solução sem efeitos colaterais”, afirma.

“Porque, na hora que ele for demitido, não é que ele não vá ter FGTS. Ele vai. Se ele for demitido sem justa causa, ele vai ter acesso à multa da rescisão. Mas, ele não terá acesso ao saldo ou a uma parte do saldo que foi utilizado para poder quitar uma dívida. É esse o cenário”, explica.

Endividamento

Segundo a CNC, a proporção de famílias com dívidas subiu de 80,2% em fevereiro para um recorde de 80,4% em março. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta terça-feira (7).

De acordo com a pesquisa, o endividamento deve seguir em alta até que os efeitos do recente ciclo de cortes na taxa básica de juros, a Selic, cheguem efetivamente ao consumidor final.

A pesquisa considera como dívidas as contas a vencer nas modalidades cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.