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Magnifica Humanitas: uma encíclica com reflexões para o tempo presente

A publicação da primeira encíclica em um pontificado é muito aguardada, não apenas por fiéis, mas por diferentes grupos que acompanham as atividades da Cúria romana

Por Carlos André Silva de Moura

Papa Leão 14

A publicação da primeira encíclica em um pontificado é muito aguardada, não apenas por fiéis, mas por diferentes grupos que acompanham as atividades da Cúria romana. O documento se constitui como um indicativo das questões políticas, sociais, culturais e religiosas que serão adotadas pelo sucessor de Pedro à frente da Igreja Católica Romana. Do mesmo modo, a divulgação ultrapassa as orientações eclesiásticas, observada como um posicionamento de um líder político frente aos problemas do tempo presente.

Na encíclica Magnifica Humanitas, assinada em 15 de maio de 2026, 135 anos após a publicação da Rerum Novarum, o Papa Leão XIV trouxe uma discussão atualizada sobre questões relacionadas aos diferentes usos da inteligência artificial. No documento não há uma condenação dos sistemas generativos, mas alertas sobre a necessidade do controle, da regulamentação e de um marco legal capaz de coibir ações que possam gerar violência, exclusão, dependência e a substituição dos homens pelas máquinas.

A partir da citação de pensadores como Platão, Hannah Arendt, Viktor Frankl e Giorgio La Pira, além de referências caras à tradição católica, como Santo Agostinho e seus antecessores no pontificado, Robert Prevost refletiu sobre a condição humana na contemporaneidade. O eclesiástico não se furtou de temas como os totalitarismos, a dignidade humana e a condenação das guerras. Em seu texto, reconheceu que em muitas ocasiões, a exemplo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a religião foi usada para legitimar ações que dizimaram milhares de vidas. Em tempos mais sombrios da nossa história, parte do clero não ouviu os “clamores do seu povo”, esteve ao lado de ditadores e torturadores, com o reforço de discursos baseados em Deus, na Pátria e na Família, mas sem qualquer conexão com os direitos humanos e a democracia.

Muito mais do que tratar da inteligência artificial, Leão XIV promoveu uma reflexão sobre os desafios da humanidade. Diferente da corrida tecnológica, reforçada dia após dia, o líder católico alertou para o desenvolvimento de projetos que garantam a centralidade humana, com as pessoas no núcleo das preocupações tecnológicas, evitando que sejam reduzidas aos bytes, aos dados ou aos números. Sendo assim, o principal desafio não é técnico, mas humano, contra a visão tecnocrática de poder e a necessidade de regras internacionais para as diferentes tecnologias.

Nesse contexto, torna-se possível debater as diversas formas de escravidão, valorizar as minorias, as mulheres e aqueles que vivem à margem da sociedade. Os debates contemporâneos não eliminaram a necessidade de revisitar o passado, processo acompanhado por um pedido de perdão pelo apoio e legitimação, por parte da Igreja Católica, das diferentes formas de escravidão, classificadas como uma “ferida na memória cristã”. Deve-se lembrar que bulas papais do século XV serviram de base religiosa para a expansão do comércio de escravizados. Documentos como a Dum Diversas (1452) e Romanus Pontifex (1454), emitidas pelo Papa Nicolau V (1397-1455), autorizavam os soberanos portugueses a invadir, conquistar e reduzir povos considerados “infiéis” à escravidão perpétua.

No Brasil, por exemplo, escravizados trazidos do Continente Africano e povos originários foram inseridos em uma ordem socioeconômica incompatível com a dignidade humana. Com o documento, mesmo que de forma tardia, a Igreja Católica reconheceu erros políticos e posicionamentos cujas consequências permanecem até hoje e movimentam grupos conservadores contrários às orientações do clero católico.

Embora parte da imprensa e de alguns debatedores tenha concentrado a atenção do Papa Leão XIV na preocupação com a inteligência artificial, a encíclica Magnifica Humanitas apresentou discussões para que possamos refletir sobre questões do tempo presente e seus impactos sobre a sociedade. Ao aproximar os debates relacionados aos sistemas generativos de antigas questões ligadas à dignidade humana, à exclusão e à memória histórica, a encíclica estabelece uma ponte entre os desafios do presente e as responsabilidades herdadas do passado.

Carlos André Silva de Moura
Professor Associado / Livre-docente da Universidade de Pernambuco
Bolsista Produtividade do CNPq