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Torcedor, empresário, convocações

Tenho saudades do tempo em que éramos integrantes da classe dos senhores ouvintes. Ou seja, de torcedores que apenas tinham acesso aos jogos, no eixo Rio-São Paulo, através das rádios

Por Vladimir Souza Carvalho

Futebol

Tenho saudades do tempo em que éramos integrantes da classe dos senhores ouvintes. Ou seja, de torcedores que apenas tinham acesso aos jogos, no eixo Rio-São Paulo, através das rádios. As imagens de jogos no Macaranã – o mundo esportivo se concentrava no Rio de Janeiro – eram vistas apenas no jornal que antecedia a exibição de filmes, cenas que empolgavam a platéia como se fossem atuais, os gritos emanados do espectador ao som de uma música que nunca soube o nome. Hoje, até cenas dos treinos, a gente vê e não é mais novidade.

E o pior não é isso, mas, anotem, a desconfiança dos convocados obedecerem a outras influências que não a vontade do técnico. Em linguagem clara, a indicação do empresário ser o fator da escolha da convocação. Não precisa ir muito longe. Na última Copa, a de Daniel Alves. Há quem explique? Hoje, temos mais, alguns velhos atletas, até um com problemas físicos, em tratamento, quando o técnico, ah, o técnico, arvorava que só os que estivessem com cem por cento de condição física seriam escolhidos. Um, o maior de todos, o atleta que dança passos de frevo, que dá língua a torcida, que não sabe o que é futebol há quase quatro anos, o foi, em pleno tratamento para só estar apto a jogar ainda no terceiro jogo. E outros, com mais de trinta anos, que no segundo tempo, não conseguem se locomover em campo, o que farão se escalados forem? E o técnico? Calado, sem explicação, como se o torcedor não tivesse memória.

Em outra área, o caso de um promotor de justiça, que não recorreu do resultado de um júri, onde o acusado, notoriamente autor do assassinato, foi absolvido. Destilou desculpas, em entrevista em rádio, de ter mil razões a fim de não levar o seu inconformismo para a instância superior. Um eleitor, o que lhe tinha dado um fusca para não recorrer, abriu a boca: era oitenta mil razões, calcando-se no preço do veículo ofertado. Não houve réplica. O fato passou.

Hoje, não é o adepto do chefe político. É o empresário do atleta. Se é, ou não é, a gente só pode entender algumas convocações como tendo o empresário por trás, segurando o papel do discurso do técnico, como vi em charge político, tendo por alvo o Presidente da República discursando. Não dá para acreditar. Em tudo, a velha verdade: o torcedor é o bobo da corte. Eu, você, nós.


Vladimir Souza Carvalho - Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras