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Um subtipo de sebastianismo

D. Sebastião não optou pela companhia feminina

Por Vladimir Souza Carvalho

Neymar, camisa 10 da Seleção Brasileira

D. Sebastião não optou pela companhia feminina. Foi atraído pela guerra, não pesando as condições e circunstâncias totalmente desfavoráveis, e, ademais, no campo do adversário. Fechou os olhos, teimosamente, para o conselho de seus generais. Resultado: morreu em plena batalha, diferentemente dos reis em filmes americanos, que sempre escapam, apesar da cavalaria não aparecer para salvá-los no momento certo.


O cadáver de Sua Majestade não foi visto por nenhum soldado, o que, aliás, era proibido. Resultado: criou-se o sebastianismo, ou seja, a espera do retorno de D. Sebastião, que, cá para nós, não vai conseguir escapar das chamas do inferno. Até o século dezenove, no sertão - sergipano e baiano - a crença se mantinha viva. Hoje, o sebastianismo é página virada na literatura. O rei-guerreiro vai continuar bem morto, para o sempre do sempre, amém. Quem o mandou ir mexer com caixa de marimbondo?!


Contudo, aconselha-se cautela com o andor que o santo é de barro. O sebastianismo, ou subtipo, brotou em circunstâncias outras, com a aproximação da Copa do Mundo. Um atleta, logo o Peter Pan, que não joga há quase quatro anos, deve entrar em campo, e, mais do que isso, resolver o problema da nossa seleção, fazendo gols suficientes para a obtenção da vitória, jogo por jogo. É o que justifica sua convocação, segundo circula nas mídias sociais. Excelente. É certo que os russos [se lembram da pergunta de Garrincha, na Copa de 1958?] não foram consultados, ainda mais se cuidando de um herói infantil que, como toda criança rica e cheia de vontade, bate o pé no chão, eu quero, eu quero, e se for contrariada, bate na cara de qualquer um. E como o chão que Peter Pan pisa se transforma em dinheiro, sua vontade é religiosamente satisfeita.


Convocou-se hoje o craque de décadas atrás, que não mais existe. O retorno não será possível, como não foi o de D. Sebastião. A esperança em quem, no momento, faltam condições física/técnica, é andorinha que não faz verão. Oxalá a Copa me desminta.


Vladimir Souza Carvalho 
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras