° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

O futebol brasileiro não pode mais adiar sua responsabilidade financeira

O futebol brasileiro vive um daqueles momentos que, no futuro, serão reconhecidos como um divisor de águas

Por Augusto Carreras

Futebol

O futebol brasileiro vive um daqueles momentos que, no futuro, serão reconhecidos como um divisor de águas. A implementação do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), instituído pela Confederação Brasileira de Futebol, não é apenas mais uma norma administrativa — é uma ruptura com uma cultura que, por décadas, foi tolerada dentro do nosso esporte.

E é preciso dizer com clareza: essa mudança chegou tarde. Durante anos, convivemos com um modelo baseado em improviso, endividamento crônico e decisões orientadas muito mais pela urgência do resultado esportivo do que pela responsabilidade de gestão. Criou-se uma lógica perigosa, na qual gastar mais do que se arrecada era visto como estratégia, e não como problema.

O SSF surge exatamente para enfrentar esse cenário. Ao estabelecer critérios objetivos de solvência, controle de custos e sustentabilidade, o sistema busca algo que deveria ser básico, mas nunca foi plenamente respeitado: que os clubes operem dentro de suas próprias capacidades financeiras. Mais do que isso, exige transparência real e informações que reflitam a verdadeira situação econômica das instituições, sem artifícios ou distorções.

Mas o aspecto mais relevante — e talvez o mais desconfortável — é outro. Pela primeira vez, a responsabilidade deixa de ser apenas institucional e passa a ser também individual.
Dirigentes, administradores e membros de conselhos não poderão mais se esconder atrás da figura do clube. O novo modelo impõe uma responsabilização direta, que atinge quem decide, quem executa e quem valida as informações. Isso muda completamente o jogo. Não se trata mais de uma falha de gestão. Trata-se de uma falha com consequências pessoais.

Esse é o ponto em que o futebol brasileiro é obrigado a amadurecer. A criação de uma estrutura independente de fiscalização, como a ANRESF, reforça esse novo ambiente, trazendo mais rigor técnico, imparcialidade e previsibilidade ao processo decisório. E isso é fundamental. Um sistema só funciona quando há confiança na regra e na sua aplicação.

Ainda assim, é importante fazer um alerta: nenhuma norma, por si só, transforma a realidade. O sucesso do SSF dependerá menos do texto do regulamento e mais da postura dos dirigentes. Se o sistema for tratado como mais uma obrigação burocrática, perderá sua essência. Se for compreendido como um instrumento de transformação, pode inaugurar uma nova era para o futebol brasileiro.

E essa escolha não é institucional. É individual. O futebol brasileiro não precisa apenas de mais receitas ou melhores contratos. Precisa, acima de tudo, de responsabilidade. Porque, no fim, a sustentabilidade não será imposta por regulamento.

Ela será construída — ou desperdiçada — pelas decisões de quem está à frente dos clubes.

Por Augusto Carreras - Advogado, Dirigente esportivo e especialista em gestão do futebol