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Frei Gilson, a Palavra e o ruído dos tempos

Não sou católico romano. Sou cristão de tradição reformada episcopal. Talvez por isso minha defesa de Frei Gilson tenha peso adicional

Por Bruno Brennand

Show de Frei Gilson nos Estados Unidos.

Não sou católico romano. Sou cristão de tradição reformada episcopal. Talvez por isso minha defesa de Frei Gilson tenha peso adicional: quando Cristo é o centro, diferenças denominacionais permanecem secundárias diante do essencial — submissão à Palavra, autoridade das Escrituras e senhorio de Jesus.
A controvérsia recente sobre Frei Gilson revela menos uma crise de interpretação bíblica e mais um choque entre cosmovisões: de um lado, a fé cristã histórica; de outro, a exigência moderna de que a Bíblia se curve ao espírito do tempo. Para quem se declara cristão, o parâmetro último não é sensibilidade cultural, aprovação social ou pressão política, mas revelação divina.

A tradição cristã histórica — católica, reformada ou ortodoxa — nunca tratou a Escritura como texto domesticável pela moda ideológica. A Bíblia confronta. Quando fala sobre sexualidade, família, pecado, santidade e ordem moral, não busca agradar tendências sociais, mas ordenar a vida sob criação, queda e redenção. Isso não autoriza crueldade, mas tampouco permite diluir doutrina para evitar controvérsia.
“Submissão”, talvez um dos termos mais distorcidos, em Efésios 5 não significa inferioridade, servidão ou ausência de dignidade. Refere-se a ordem funcional: marido chamado ao amor sacrificial; esposa à cooperação pactual; ambos iguais em dignidade diante de Deus. O texto começa com submissão mútua no temor de Cristo. O modelo bíblico não é tirania, mas responsabilidade e aliança. Reduzi-lo automaticamente à opressão é frequentemente ler a Bíblia por lentes ideológicas externas.

A crítica contemporânea muitas vezes exige que o cristianismo preserve sua estética — templos, ritos, símbolos — enquanto abandona sua ética. Isso não é reforma; é esvaziamento.

Quando Frei Gilson critica uma cultura incapaz de suportar frustração, toca num nervo exposto. A cultura de vitimização permanente, denunciada por pensadores como Thomas Sowell, frequentemente transforma desconforto em opressão estrutural e substitui responsabilidade por identidade performática. Em muitos excessos, a cultura woke não reconcilia; tribaliza.

Há também contradição civilizacional quando figuras públicas recorrem a símbolos cristãos — casamento religioso, linguagem moral, dignidade humana — enquanto desqualificam os fundamentos bíblicos que sustentam tais símbolos. Não se sustenta indefinidamente usufruir dos frutos de uma tradição enquanto se mina sua raiz.

Para o cristão, há ainda dimensão espiritual que o secularismo despreza. O conflito não é apenas político ou cultural, mas também moral e espiritual. Efésios 6:12 aponta para batalha além da carne e sangue. Isso não elimina responsabilidade humana nem transforma todo dissenso em ação demoníaca simplista, mas reconhece que a disputa por valores envolve mais que sociologia.

No Brasil, apesar da secularização, o cristianismo permanece força central. O Censo 2022 registra católicos como maioria proporcional (56,7%) e evangélicos em crescimento (26,9%). Globalmente, o cristianismo continua avançando inclusive sob perseguição. A fé cristã não é relíquia moribunda; permanece vigorosa.

Em sociedades livres, discordância moral não pode ser automaticamente convertida em ódio. Pais, mães e comunidades religiosas possuem direito de consciência para defender suas convicções sobre família, sexo, moralidade e educação. Democracia exige equilíbrio entre dignidade individual e liberdade de consciência — não imposição ideológica travestida de virtude.

Também no campo cultural, visibilidade não é autoridade moral. Celebridade, sarcasmo ou militância não substituem profundidade. Humor seletivo que ridiculariza apenas dogmas permitidos frequentemente deixa de ser coragem e passa a ser conformismo.

O cristão bíblico não foi chamado a ajustar indefinidamente sua fé às mutações culturais, mas a permanecer fiel. Isso não significa violência ou ausência de compaixão. Significa compreender que amor cristão não é capitulação moral.

Frei Gilson, goste-se ou não de seu estilo, tornou-se símbolo de algo maior: a recusa de muitos cristãos em permitir que sua fé seja reescrita por pressões ideológicas passageiras.

No fim, permanece a pergunta decisiva: quem moldará a consciência cristã — a Palavra de Deus ou a aprovação social?

Toda geração enfrenta seu teste. Talvez o nosso seja este: permanecer firme quando o mundo não exige apenas silêncio, mas rendição.

Bruno Brennand -  Advogado