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Aluísio Xavier, Maria do Carmo, uma "Enciclopédia"

Uma leitura do livro "Enciclopédia como Modelo", de Otto Neurath, leva-nos a uma reflexão sobre o conhecimento humano

Por Marcus Prado

Enciclopédia


Uma leitura do livro “Enciclopédia como Modelo”, de Otto Neurath, leva-nos a uma reflexão sobre o conhecimento humano, aos meios da informação e o papel histórico das enciclopédias na formação da cultura ocidental. Conduz, igualmente, à importância desfrutada pela “Stanford Encyclopedia of Philosophy”, que reúne estudiosos de filosofia e disciplinas afins de todo o mundo para manter uma obra de referência atualizada — uma das indicações mais credenciadas sobre o tema. Isso sem falar da crescente reputação da Britannica como baluarte de erudição, agora em edição digital. Tais lembranças evocam à memória, o interesse e o gosto do saudoso mestre da Faculdade de Direito do Recife, Aluísio de Melo Xavier. Magistrado de referência e prestígio entre seus pares, Aluísio tinha o hábito audacioso e paciente de colecionar dicionários raros e enciclopédias famosas. Buscava o que havia, em seu tempo e alcance, de mais confiável nesse meio de pesquisa sobre todas as coisas e épocas. Era como possuir as chaves de todo o saber humano dentro da própria casa, em uma era ainda distante das conquistas digitais. Não se tratava apenas de um simples hábito ou do prazer de colecionador; Aluísio era um apaixonado pela investigação literária e pelo saber. Sua biblioteca não era composta apenas por obras de bibliofilia ou de sua especialização jurídica. Os grandes clássicos da literatura, de variados gêneros e épocas — cerca de três mil títulos —, tomavam por completo o espaço de um anexo em sua casa, no bairro recifense do Curado.


Nas muitas conversas que tivemos (éramos conterrâneos de Vitória de Santo Antão), a filósofa Maria do Carmo Tavares de Miranda revelou o seu apreço por uma coleção especial: a “Biblioteca Internacional de Obras Célebres”. Seus 24 volumes são conhecidos pela riqueza gráfica, capas em relevo, dourações e ilustrações (gravuras e fotografias de autores). A coleção transformou o livro em um objeto de desejo, refletindo o gosto da Belle Époque. Tamanha a sua importância que até Carlos Drummond de Andrade dedicou um longo poema à obra. Maria do Carmo guardava em seu gabinete de estudo a coleção completa dessa enciclopédia, um projeto editorial até hoje não superado em nosso idioma. (Curioso notar que, embora publicada em português, a obra nunca foi editada em Portugal).


Fui seu leitor; conheci ali as primeiras traduções em nosso idioma de Tennyson, Wordsworth, Thomas Moore, John Whittier e James Lowell. Descobri também versões de outros mestres: os espanhóis Garcilaso de la Vega, Luís de Góngora e Francisco de Quevedo, além dos poetas de língua inglesa Coleridge, Shelley, Elizabeth Browning, Robert Browning e Rudyard Kipling. Compilada em 1899 na Inglaterra, a edição original da "Biblioteca" traz uma panorâmica da poesia em inglês do século XIX. Na versão lusófona, a coleção inclui textos de autores brasileiros, como Machado de Assis. Foi nela, inclusive, que o nome de Fernando Pessoa apareceu pela primeira vez como tradutor. Há pesquisa do professor Arnaldo Saraiva (Universidade do Porto), de tantos amigos no Recife, que revela a presença do poeta português também como autor, sem assinatura, de textos de apresentação. A Biblioteca não foi apenas uma coleção de livros; foi um marco cultural na virada do século XIX para o XX.

Marcus Prado - Jornalista