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A queda do gigante

O Santa Cruz não acabou num dia. Foi se despedindo devagar.

Por Ridoval Veras

Bandeira do Santa Cruz na Arena Pernambuco

Dizem que clube de futebol não morre. Que pode cair, sangrar, agonizar, mas sempre encontra um jeito de voltar. Talvez seja verdade para alguns. Para outros, o fim não chega com um anúncio oficial, nem com um apito final — ele vai acontecendo aos poucos, em prestações silenciosas, como quem desaprende a existir.

O Santa Cruz não acabou num dia. Foi se despedindo devagar.

Primeiro, a arquibancada já não tremia como antes. Ainda havia gente — sempre haverá — mas faltava aquele rugido que fazia o adversário errar passe simples. Depois vieram as temporadas que começavam com esperança e terminavam em silêncio constrangido. O calendário encolheu, os jogos rarearam, e o clube que já foi das multidões passou a caber em datas esquecidas.

Mas o mais doloroso não foi a ausência de títulos. Foi a ausência de sentido.

Houve um tempo em que vestir o manto coral era carregar uma cidade inteira nas costas. Não era só futebol — era identidade, era resistência, era uma espécie de orgulho teimoso de quem se reconhece na dor e na beleza de torcer. O Santa Cruz era mais do que um clube: era um estado de espírito coletivo, um pacto emocional que atravessava gerações.

E então vieram as gestões que não entenderam isso. Ou pior: entenderam, mas não se importaram. Dívidas cresceram como mato em terreno abandonado, promessas viraram rotina, e o que era paixão virou resignação. O torcedor, esse personagem incansável, continuou ali — porque torcedor não abandona, ele suporta. Mas até a resistência tem um preço.

A morte de um clube assim não é a perda de um time. É a perda de um lugar no mundo.

É o pai que já não leva o filho ao estádio porque não há mais jogos relevantes. É o amigo que deixa de discutir escalação porque já não há o que escalar. É a cidade que perde um pouco da sua própria narrativa. Porque o Santa Cruz sempre foi mais do que futebol em Recife — foi um capítulo vivo da história afetiva de quem aprendeu a amar nas arquibancadas.

E, no entanto, há algo que insiste em não morrer.

Talvez não seja o clube — pelo menos não como instituição —, mas a memória. Aquela lembrança quase física de dias em que o Arruda pulsava como um coração gigante. De gols que pareciam mudar o destino. De uma multidão que, por algumas horas, acreditava ser invencível.

A morte do Santa Cruz, se é que ela já aconteceu, não foi completa. Porque ainda há quem lembre. E lembrar, no futebol, é uma forma de resistência.

Mas memória, sozinha, não disputa campeonato. Não paga conta. Não reconstrói o que foi perdido.

E é aí que mora a verdadeira tragédia: não no fato de um gigante ter caído, mas na possibilidade de que ninguém mais saiba — ou consiga — levantá-lo. Os três últimos anos foram pura ilusão!!

Ridoval Veras,

Conselheiro do Santa Cruz.