Melancolia e intimismo na poesia de um gênio
Sabe-se, na história mundial da literatura, de escritores de todas as épocas, que deixaram seus arquivos secretos
Sabe-se, na história mundial da literatura, de escritores de todas as épocas, que deixaram seus arquivos secretos. Muitas vezes, o que chamamos de "gênio" é o resultado de uma escrita rigorosa; o que sobra no rascunho é a vulnerabilidade, o erro e o caminho tortuoso até à perfeição. A tortura da forma. Talvez o caso mais famoso seja o do poeta português Fernando Pessoa. Cada vez que se abre a sua “arca”, há sempre um novo tesouro. Vladimir Nabokov foi outro desses casos. O autor de “Lolita” era obsessivo com o controle de sua imagem; deixou instruções para que sua esposa destruísse o manuscrito inacabado de “The Original of Laura”. Philip Larkin, poeta britânico, ordenou que seus diários fossem triturados após sua morte. Já J.D. Salinger, após o sucesso de “O Apanhador no Campo de Centeio”, isolou-se e continuou escrevendo por décadas sem publicar nada. Seus arquivos originais tornaram-se o "Santo Graal" literário, guardados sob sete chaves em sua casa em Cornish, longe de biógrafos e curiosos. Não se pode falar de originais secretos sem citar Franz Kafka. Foi demais...Ele é o exemplo máximo da tensão entre o desejo de desaparecer e o desejo de ser lido. Pediu ao seu amigo Max Brod que queimasse todos os seus manuscritos (incluindo “O Processo” e “O Castelo) "sem lê-los". Bem próximo do leitor, foi o caso de Francisco Brennand: tornou-se impiedoso com as “sobras” dos seus famosos “Diários”, um Dos seus escritos sobre os encontros semanais de amigos em Casa Forte, ele e Deborah, sempre aos domingos.
Chegou a vez do paisagista mais famoso do seu tempo: Roberto Burle Marx. Entre os milhares de papéis e projetos paisagísticos deixados por ele — que estão sendo agora descobertos e catalogados por uma equipe do Instituto Burle Marx (RJ) — uma surpresa veio somar-se a tantas outras: dois poemas datilografados, datados de setembro de 1939. Devo essa descoberta a Ana Cecília Burle Marx, sobrinha do “Poeta dos Jardins”, minha amiga. Sua poesia revela um tom bucólico e contemplativo. É poesia dos 30 anos, carregada de melancolia e intimismo. Diferente dos seus jardins vibrantes e ensolarados, aqui encontramos uma "paleta de cores" cinzenta e úmida.
Vento da Tarde
“O vento da tarde vem vindo, /fazendo vacilar as ninfeias/do meu poço tranquilo.../ Levando a fumaça das fábricas, /levando um punhado de pétalas da minha cerca dorida./ Saudades, / petúnias, / perpétuas. /Vento da tarde/ que conta histórias/de vitórias perdidas;/roubou a luz dos meus templos:/de cabeças, /de seios, // de troncos. Apagou os teus círios acesos, /deixando a todos/de olheiras pesadas nas ruas de um subúrbio escondido”.
Muros Velhos
“Vou guardar o teu sorriso triste na garoa das tardes de inverno / esconder a minha revolta muda na sombra de teu rosto pálido, sepultar os meus soluços no emaranhado dos teus cabelos sonolentos, em brejos//e quando a noite apagar/o contorno de teu olhar cansado,/sentirei teu pranto/escorrer sobre meu corpo./A chuva fina/molhará minha dor surda/ e velhos muros/cobertos de estrelas brancas.//Um vento louco/impelirá nuvens tontas/pela terra afora, e as estrelas brancas/ de meus muros velhos...”
Marcus Prado - Jornalista