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A ditadura e a misoginia

Hoje, irei contar a história de uma pernambucana ainda muito pouco conhecida: Sylvia de Montarroyos

Por José da Costa Soares

Sylvia de Montarroyos

Hoje, irei contar a história de uma pernambucana ainda muito pouco conhecida: Sylvia de Montarroyos.
Menina de classe média do Recife, com boa formação e muita sensibilidade para causas sociais, Sylvia era irmã de Carlos de Montarroyos, que foi preso político no início da década de 1960.

Ao lutar pela liberdade de seu irmão, ingressou no movimento estudantil e, com o golpe de 1964, precisou entrar na clandestinidade.

Tornou-se noiva de Pedro Makovski, com quem passou a militar contra a ditadura recém-instalada.
Em um dia, enquanto dormia, foi acordada com a chegada da polícia.

Ainda tentou fugir, mas Sylvia (codinome Tatiana) e o noivo (codinome Gustavo) foram pegos, em fuga, "de mãos dadas" (forma como Sylvia iniciou a sua autobiografia). Isto aconteceu no dia 2 novembro de 1964.

No fim daquele mês, Sylvia foi colocada em uma sala escura de um quartel do Recife, frente a frente com Pedro. Acreditem se quiserem, mas ela foi estuprada por agentes da ditadura diante do seu noivo, ficando no chão completamente ensanguentada bem perto da morte.

"Eram tapas, queimaduras de cigarro... me colocaram em uma jaula de uns 80cm quadrados. Privação de sono e de alimento, isolamento e incomunicabilidade. Eu só recebia meio pão seco e meio copo de água", lembra Sylvia, hoje uma senhora com mais de 70 anos.

Tudo isso tinha um objetivo: provocar naquela jovem de 17 anos, que não falava o que os torturadores queriam ouvir, danos de natureza sensorial, com consequências como alucinações, confusão mental, desagregação, depressão e ideias suicidas.

Foi assim que Sylvia foi levada para o Manicômio da Tamarineira, extremamente machucada e inconsciente, pesando 23kg.

Na Tamarineira, não recebeu apenas eletrochoques, mas também foi tratada com insulinoterapia, para provocar-lhe convulsões e até levá-la ao coma.

"A ditadura foi uma fábrica de mortos e uma fábrica de loucos. Como eu, muita gente enlouqueceu na tortura", diz Sylvia.

É óbvio que a ditadura foi implacável com os homens, mas é inegável que a repressão foi mais cruel com as mulheres. Isto porque, dentre outras razões, as torturas sempre incluíam sevícias sexuais.

Pelo quarto ano consecutivo, estamos articulando um ato em rechaço ao golpe de 1964, justamente no dia 31 de março. Neste ano, a pauta escolhida foi a relação da ditadura com as mulheres.

O ato acontecerá no dia 31 de março, às 19h:30min, no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Recife, contando com partes da encenação teatral “Retratos de Chumbo” do Grupo João Teimoso e a participação de Renata Santa Cruz, autora do livro “A misoginia na ditadura e a Justiça de Transição”.

É sempre bom lembrar, também, que 31 de Março é o Dia Estadual das Diretas Já, dia em que aconteceu em Pernambuco (Abreu e Lima/PE) o primeiro ato público da campanha das Diretas, a maior campanha de massas da história do Brasil, que impulsionou o processo de redemocratização do país (Lei n.º 18.143/2023).

Todos estão convidados.

Ditadura nunca mais.

José da Costa Soares - Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Pernambuco. Sócio efetivo do IAHGP. Administrador da página @historia_em_retalhos.