° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

A política reduzida a mera luta pelo poder

"Política é a luta pelo poder". A frase, frequentemente associada ao pensamento de Max Weber, sintetiza uma visão recorrente sobre a atividade política

Por Eduardo Paurá Filho

Nas democracias, a política não pode ser reduzida a uma simples plataforma de conquista do poder

“Política é a luta pelo poder”. A frase, frequentemente associada ao pensamento de Max Weber, sintetiza uma visão recorrente sobre a atividade política. Contudo, o poder não pode ser um fim em si mesmo.
Nas democracias, a política não pode ser reduzida a uma simples plataforma de conquista do poder. O que se tem visto, entretanto, é uma atuação política cada vez mais marcada por um pragmatismo desmedido. Valores e ideologias que antes distinguiam partidos e correntes políticas parecem progressivamente diluídos. Em um país com cerca de 30 partidos registrados e outros tantos em formação, já não se sabe, há muito tempo, quem é quem.

Nesse contexto, cresce o número de políticos pragmáticos, mudando de posição ao sabor de alianças circunstanciais e da busca por mandatos. A política passa, assim, a ser reduzida àquilo que jamais deveria ser: uma mera luta pelo poder.

Exemplos recentes surpreendem e chocam a sociedade, evidenciando uma política de fachada que remete ao chamado “teatro das tesouras”.

Às vésperas do encerramento da janela partidária, as movimentações no cenário político — inclusive no âmbito estadual — surpreendem até mesmo os mais pragmáticos. O que se evidencia é a crescente ausência de fidelidade ideológica e programática e, em muitos casos, até mesmo de lealdade a grupos anteriormente integrados.

A janela partidária, prevista na Lei nº 9.096/1995, foi concebida como mecanismo legítimo de reorganização das forças políticas. A legislação condiciona a desfiliação sem perda de mandato à existência de justa causa, nos termos do art. 22-A. Quando fundada em razões legítimas, a mudança de legenda é aceitável.

O problema está nas movimentações orientadas exclusivamente por conveniências eleitorais e mera expectativa de poder, a revelar incoerência política, desrespeito ao eleitor e fragilidade da identidade partidária, o que compromete a credibilidade do sistema e, por esse motivo, é fenômeno que precisa ser devidamente valorado de modo a viabilizar o seu aperfeiçoamento normativo e, dessa forma, impor limites ao pragmatismo extremado.

Por outro lado, a tolerância do eleitor com práticas incoerentes contribui para sua perpetuação. A democracia não se esgota no momento do voto. Ela exige vigilância contínua, memória política e compromisso com a coerência dos representantes escolhidos. Quando o eleitor relativiza mudanças abruptas de posicionamento, acaba, ainda que involuntariamente, legitimando uma lógica que enfraquece a própria qualidade da representação democrática.

Resgatar a credibilidade da política passa, necessariamente, por reafirmar que o poder não é fim em si mesmo. É instrumento a serviço da sociedade e só se justifica se exercido com princípios, coerência e em prol dos seus legítimos interesses.


Eduardo Paurá Filho - Advogado e Sócio-Fundador da Paurá Advocacia