Calor urbano em pauta: aprendizados de Salvador e caminhos possíveis para o Recife
Ondas de calor e temperaturas elevadas são uma realidade comum de cidades como o Recife, mas até que momento o que já faz parte do cotidiano deve se tornar uma preocupação?
Ondas de calor e temperaturas elevadas são uma realidade comum de cidades como o Recife, mas até que momento o que já faz parte do cotidiano deve se tornar uma preocupação? Em um contexto de mudança do clima, o que é naturalizado, passa a se intensificar e, o calor deixa de ser apenas uma característica local para se tornar um risco, que afeta a saúde, o bem-estar e a vida cotidiana da população. Foi nesse contexto que eu, juntamente com a também arquiteta e urbanista Dayse Vital, ambas representantes da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES), participamos de uma missão técnica em Salvador, promovida pelo WRI Brasil.
A experiência evidenciou como Salvador, assim como outras cidades brasileiras, vem estruturando sua agenda de adaptação climática de forma mais integrada e visível, transformando diretrizes em ações concretas, com metas, instrumentos e monitoramento contínuo. O Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças do Clima demonstra como a cidade tem lidado com a adaptação de forma transversal, envolvendo planejamento urbano, saúde pública, infraestrutura, mobilidade e gestão territorial. Outro ponto relevante foi o nível de detalhamento das estratégias voltadas ao enfrentamento do calor urbano, com protocolos específicos para altas temperaturas e ações para grandes eventos, como a criação de áreas de resfriamento e de acesso à água.
Entre os destaques da missão, esteve a visita ao Corredor Verde da Av. Manoel Dias da Silva, iniciativa voltada à ampliação da arborização urbana para reduzir temperaturas e conectar áreas verdes. A proposta, aparentemente simples, revela-se complexa na prática, pois envolve altos custos, desafios logísticos e um tempo de adaptação das espécies que nem sempre é compreendido pela população. Durante as visitas, foi possível observar que muitas árvores ainda estão em fase de adaptação e crescimento, enquanto outras não resistiram, reforçando que soluções baseadas na natureza exigem manutenção contínua, planejamento técnico e gestão de expectativas, já que os resultados não são imediatos e o processo de aprendizado também faz parte da construção dessas soluções.
Ao olhar para essa experiência, Recife apresenta um cenário com oportunidades em construção. A pauta climática está presente, distribuída entre diferentes iniciativas, secretarias e escalas de atuação. O desafio está na articulação, no fortalecimento de uma governança capaz de integrar políticas, alinhar prioridades e promover coordenação entre diferentes níveis de governo e setores. Esse cenário aponta para a necessidade de maior integração institucional e de instrumentos que fortaleçam a agenda climática na cidade.
A atuação da ARIES se insere diretamente nesse contexto, promovendo a articulação entre atores públicos, privados, acadêmicos e comunitários, contribuindo para o desenvolvimento de projetos e políticas voltados a soluções urbanas e sustentabilidade. A experiência em Salvador amplia a compreensão sobre os desafios práticos dessas intervenções, especialmente no que diz respeito a riscos, tempo de implementação e à importância do engajamento social e institucional.
Mais do que replicar modelos, o principal aprendizado está na adaptação das soluções ao contexto local. Estratégias como corredores verdes e ampliação da arborização precisam considerar as especificidades urbanas e climáticas do Recife, mas também suas desigualdades. Em geral, são justamente as áreas mais vulneráveis, com menor infraestrutura e maior exposição ao calor, aquelas com menor cobertura vegetal.
O calor urbano já é uma realidade presente no cotidiano das cidades. Enfrentá-lo exige planejamento, comunicação e articulação entre diferentes atores. A experiência em Salvador reforça que, embora não existam soluções simples, há caminhos possíveis, e cada cidade precisa construir o seu.
Por Inês Domingues, arquiteta e urbanista da ARIES