8 de março: quando as flores escondem as mortes
Todos os anos, no dia 8 de março, somos inundadas por flores, homenagens e discursos sobre a importância das mulheres
Todos os anos, no dia 8 de março, somos inundadas por flores, homenagens e discursos sobre a importância das mulheres. Mas, diante da realidade da violência de gênero no Brasil — e particularmente em Pernambuco — a pergunta que precisa ser feita é: o que exatamente temos para comemorar?
Os números mostram que ainda estamos muito longe de celebrar. Em 2024, Pernambuco registrou 76 feminicídios, segundo dados da Secretaria de Defesa Social. Sessenta e oito dessas mortes ocorreram apenas nos primeiros 11 meses do ano, o que representa um aumento superior a 20% em relação ao período anterior.
Cada uma dessas mortes revela algo que precisamos dizer sem eufemismos: o feminicídio não é um crime inesperado. Ele é, quase sempre, uma violência anunciada.
Na maioria dos casos, as vítimas já vinham sofrendo ameaças, agressões físicas, violência psicológica ou perseguições. Muitas haviam procurado ajuda, registrado ocorrências ou solicitado medidas protetivas. Ainda assim, morreram. Não por acaso, mas porque a resposta institucional falhou em protegê-las.
A maior parte desses assassinatos é cometida por companheiros ou ex-companheiros, dentro de relações marcadas por controle, ciúmes e sentimento de posse. Isso desmonta um dos maiores mitos sociais sobre segurança feminina: o de que o perigo está nas ruas. Para muitas mulheres, o lugar mais perigoso continua sendo o próprio lar.
Esses crimes não acontecem por impulso isolado ou descontrole momentâneo. Eles são fruto de uma estrutura social que ainda tolera o controle sobre a vida das mulheres, relativiza ameaças e naturaliza a violência doméstica.
Não se trata apenas de um problema criminal. Trata-se de um problema cultural, histórico e estrutural.
A criação da qualificadora do feminicídio no Código Penal, em 2015, foi um passo importante justamente porque nomeou uma realidade que durante décadas foi invisibilizada: mulheres mortas simplesmente por serem mulheres. Ainda assim, a existência de leis avançadas, como a Lei Maria da Penha, não tem sido suficiente para impedir que essas mortes continuem acontecendo.
Isso ocorre porque ainda existe um enorme abismo entre a legislação e sua aplicação efetiva. Delegacias especializadas continuam insuficientes, casas-abrigo são escassas, políticas de proteção funcionam de forma desigual e muitas mulheres encontram enormes barreiras para acessar a rede de apoio.
Enquanto isso, persistem discursos que tentam deslegitimar o próprio conceito de feminicídio, como se dar nome a essa violência fosse um privilégio ou exagero. Não é. É uma necessidade.
Nomear o feminicídio é reconhecer que essas mortes não são acidentais, nem aleatórias. Elas são resultado direto de relações de poder desiguais, sustentadas por uma cultura que ainda autoriza homens a controlar, punir e, em casos extremos, eliminar mulheres que ousam romper relações ou afirmar sua autonomia.
O enfrentamento dessa realidade exige mais do que campanhas pontuais ou homenagens simbólicas no Dia Internacional da Mulher. É preciso política pública contínua, investimento real na rede de proteção, resposta rápida às denúncias e monitoramento efetivo dos agressores.
Mas também é necessário enfrentar o problema na sua raiz: o machismo estrutural que ainda organiza muitas relações sociais no país.
Enquanto a violência contra a mulher continuar sendo tratada como um problema privado ou secundário, continuaremos repetindo o mesmo ritual anual: flores no 8 de março e estatísticas de mortes nos demais dias do ano.
Por isso, antes de celebrar, talvez devêssemos fazer outra pergunta neste Dia Internacional da Mulher: quantas ainda precisarão morrer para que a vida das mulheres seja tratada como prioridade?
Ser mulher em uma sociedade marcada pelo machismo e pela desigualdade ainda é, infelizmente, um ato cotidiano de resistência.
Fabiana Leite Domingues
Advogada – Especialista em Direito das Famílias e Direitos das Mulheres