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Gripe exige seriedade: um alerta que não pode ser ignorado

Nas últimas semanas, o aumento dos casos de gripe causada pelo vírus influenza A tem se tornado evidente na prática clínica diária

Por Eduardo Jorge da Fonseca Lima

Pernambuco receberá 30.700 doses da vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR)

Nas últimas semanas, o aumento dos casos de gripe causada pelo vírus influenza A tem se tornado evidente na prática clínica diária. Consultórios, emergências e unidades de saúde voltam a registrar crescimento consistente de pacientes com quadro gripal. À primeira vista, pode parecer apenas mais um movimento sazonal esperado. No entanto, os dados clínicos e epidemiológicos indicam que a situação exige atenção maior.

A gripe mantém seu padrão clássico de apresentação com febre, tosse, dor de garganta, congestão nasal e mialgia. Porém, observa se também frequência relevante de manifestações digestivas, como náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia, especialmente em crianças. Essa ampliação do espectro clínico reforça que a infecção não se restringe ao trato respiratório.

A gripe é uma doença sistêmica. O vírus desencadeia resposta inflamatória intensa, com liberação de citocinas e ativação imunológica generalizada. Essa resposta, necessária para combater o agente infeccioso, pode também gerar repercussões significativas no organismo.

É nesse ponto que precisamos ser claros: gripe não é uma condição leve.

Evidências científicas robustas demonstram associação consistente entre infecção pelo vírus da gripe e aumento do risco de eventos cardiovasculares agudos. Estudos publicados em periódicos internacionais de alto impacto mostram que o risco de infarto agudo do miocárdio pode aumentar até seis vezes na primeira semana após a infecção. O risco de acidente vascular cerebral também se eleva nos dias subsequentes ao quadro gripal, particularmente em idosos e em indivíduos com fatores de risco como hipertensão, diabetes, obesidade ou doença coronariana prévia.

O mecanismo é plausível e bem estabelecido. A inflamação sistêmica pode desestabilizar placas ateroscleróticas, aumentar a agregação plaquetária e favorecer fenômenos trombóticos. Além disso, a febre e a resposta metabólica elevam a demanda cardíaca. Em um organismo vulnerável, essa combinação pode ser suficiente para precipitar um evento grave.

Portanto, prevenir gripe não significa apenas evitar dias de febre e mal estar. Significa reduzir hospitalizações, prevenir descompensações clínicas e diminuir risco de infarto e AVC.

A vacinação anual é a estratégia mais eficaz e segura para enfrentar esse cenário. Assim que estiver disponível, deve ser realizada o mais rapidamente possível, garantindo proteção individual e coletiva e contribuindo para reduzir a circulação do vírus na comunidade.

Para a temporada de 2026 no hemisfério sul, as vacinas foram atualizadas com base na vigilância epidemiológica global e na caracterização genética das cepas circulantes. As formulações incluem:

Vacinas trivalentes
A Missouri 11 2025 H1N1 semelhante
A Singapore GP20238 2024 H3N2 semelhante
B Austria 1359417 2021 linhagem Victoria

Vacinas quadrivalentes
As três cepas acima
B Phuket 3073 2013 linhagem Yamagata

Essa atualização anual é essencial, pois o vírus influenza sofre mutações frequentes, modificando seu perfil antigênico. A imunização precisa acompanhar essa dinâmica para manter sua efetividade.

É igualmente importante enfrentar um mito que ainda compromete a adesão vacinal. A vacina contra a gripe não causa gripe. Trata se de vacina com vírus inativado, incapaz de provocar a doença. Sintomas leves após a aplicação, como dor no local da injeção ou febre baixa, representam resposta imunológica esperada e transitória.

Na população idosa, quando possível, recomenda se optar pela vacina de alta dose. Essa formulação contém maior concentração de antígeno e apresenta melhor resposta imunológica nessa faixa etária, cuja imunossenescência reduz naturalmente a proteção. A utilização da high dose está associada à redução adicional de hospitalizações e complicações graves.

Paralelamente à vacinação, medidas simples continuam fundamentais. Lavagem frequente das mãos com água e sabão, uso de álcool setenta por cento e etiqueta respiratória adequada reduzem a transmissão do vírus, especialmente em ambientes coletivos.

Estamos diante de um momento que exige responsabilidade individual e coletiva. Minimizar a gripe é um erro que impacta o sistema de saúde e, principalmente, as famílias que enfrentam complicações evitáveis.

A gripe é prevenível. Suas complicações, em grande parte, também.

Vacinar é um ato de proteção pessoal e de compromisso social. É reduzir transmissão. É evitar internações. É proteger o coração e o cérebro. É salvar vidas. 

Eduardo Jorge da Fonseca Lima - médico, superintendente de Ensino, Pesquisa e Inovação do IMIP, conselheiro Federal por Pernambuco e presidente do Departamento de Imunizações da SBP