Por que estudar filosofia?
Durante muito tempo, achei que filosofia fosse coisa do passado
Durante muito tempo, achei que filosofia fosse coisa do passado. Quando ainda estava em formação, meu avô Orlando repetia com frequência que eu deveria ler Platão, Aristóteles e outros clássicos. Eu ouvia, mas tratava aquilo como algo ultrapassado, sem efeito prático. Hoje reconheço: eu estava errado.
A filosofia não serve para dar respostas prontas. Ela ensina a pensar. Ensina a olhar para os problemas do presente, a compreender suas causas e a buscar soluções próprias. Sem esse exercício, diante das dificuldades atuais, acabamos fazendo exatamente o mesmo que todos os outros fazem — reagindo de forma automática, repetindo fórmulas prontas, copiando discursos e reproduzindo decisões sem reflexão. É o piloto automático da vida pública.
Platão, em “A República”, defendia que um Estado só seria verdadeiramente justo se fosse conduzido por filósofos — ou por governantes que pensassem como filósofos. Não se trata de erudição, mas de postura: governar com razão, responsabilidade e compromisso com o bem comum, e não apenas com resultados imediatos.
Séculos depois, John Rawls reforça essa mesma intuição ao afirmar que decisões só são legítimas quando nascem de procedimentos justos e podem ser publicamente justificadas. Não basta que o resultado pareça correto; é preciso que o caminho até ele seja racional, transparente e respeitoso com todos. Traduzindo para o nosso tempo: não é suficiente “resolver” problemas — é preciso fazê-lo de modo justo, ouvindo, ponderando e tratando as pessoas como fins, não como obstáculos administrativos.
A pergunta incômoda é inevitável: nossos líderes realmente pensam sobre como solucionar os problemas da sociedade? Ou apenas administram crises, repetem estratégias gastas e correm atrás do próximo indicador, da próxima manchete ou da próxima eleição?
Sem reflexão filosófica, o direito vira técnica vazia, a política vira disputa de interesses e a administração se reduz a números. Com filosofia, ganhamos profundidade, limites éticos e senso de propósito.
Hoje entendo que meu avô não me sugeria apenas livros. Ele apontava um caminho: pensar antes de decidir, compreender antes de agir, buscar sentido antes de eficiência. Estudar filosofia é aprender a ser menos ingênuo diante do poder, menos superficial diante dos problemas e mais responsável diante das próprias escolhas. É recusar o piloto automático. Não é luxo intelectual. É necessidade prática.
Se eu pudesse voltar no tempo, diria àquele jovem que via Platão e Aristóteles como coisas superadas que eles continuam falando — talvez mais alto do que nunca. A filosofia não é um adorno do pensamento. É sua base. E quanto mais cedo entendermos isso, melhor preparados estaremos para conduzir nossas vidas e, sobretudo, para cobrar de quem governa decisões que sejam mais do que reações automáticas ao caos do dia.