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A profissionalização da arbitragem brasileira: um passo necessário para a credibilidade do futebol

A recente iniciativa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de anunciar um Programa de Profissionalização da Arbitragem, com implementação prevista a partir do Campeonato Brasileiro da Série A de 2026, representa um movimento histórico e, sobretudo, necessário para o amadurecimento institucional do futebol nacional

Por Augusto Carreras

Arbitragem

A recente iniciativa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de anunciar um Programa de Profissionalização da Arbitragem, com implementação prevista a partir do Campeonato Brasileiro da Série A de 2026, representa um movimento histórico e, sobretudo, necessário para o amadurecimento institucional do futebol nacional.


Durante décadas, a arbitragem brasileira conviveu com um modelo híbrido, marcado pela ausência de vínculos profissionais estáveis, remuneração variável por jogo e limitações estruturais para treinamento, acompanhamento físico, psicológico e técnico. Esse cenário, além de impactar diretamente o desempenho dos árbitros, compromete a credibilidade das competições e alimenta um ambiente permanente de desconfiança.


O novo programa rompe, ao menos em sua concepção, com essa lógica. A previsão de contratos formais, remuneração fixa, avaliações periódicas de desempenho e acesso a uma estrutura multidisciplinar — incluindo preparação física, acompanhamento psicológico e uso intensivo de tecnologia — aproxima a arbitragem brasileira de modelos já adotados em ligas mais organizadas do futebol internacional.
Sob a ótica da governança esportiva, trata-se de um avanço relevante. Não há competição forte sem arbitragem forte. E não há arbitragem forte sem condições profissionais adequadas, clareza de critérios, meritocracia e transparência nos processos de avaliação e escalação.


Do ponto de vista jurídico, a profissionalização da arbitragem também tende a reduzir conflitos, questionamentos administrativos e disputas judiciais relacionadas à atuação dos árbitros. A existência de vínculos contratuais claros, deveres bem definidos e critérios objetivos de avaliação contribui para maior segurança jurídica e previsibilidade institucional.


Além disso, o programa dialoga diretamente com o atual momento do futebol brasileiro, que busca maior racionalidade econômica, organização estrutural e credibilidade — especialmente em um contexto de SAFs, ligas e modelos empresariais de gestão.


Naturalmente, o sucesso da iniciativa dependerá de sua execução. Será fundamental observar: a transparência dos critérios de seleção e avaliação dos árbitros; a independência técnica dos órgãos responsáveis pelas análises de desempenho; a expansão gradual do modelo para outras divisões e competições; e a capacidade da CBF de sustentar o projeto no médio e longo prazo, sem retrocessos.
A profissionalização da arbitragem não resolve, por si só, todos os problemas do futebol brasileiro. Mas é um passo estruturante, que sinaliza amadurecimento institucional e compromisso com a integridade das competições.


Se bem executado, o programa pode representar um divisor de águas, contribuindo para decisões mais consistentes em campo, redução de conflitos fora dele e fortalecimento da confiança de clubes, atletas, investidores e torcedores.


No futebol moderno, credibilidade também é ativo. E a arbitragem é parte essencial desse patrimônio.


*Augusto Carreras, advogado, mestrando em Direito Esportivo, ex-vice presidente de Futebol do Sport Club do Recife e ex-auditor do TJD/PE