Nunca Mais
Em 2005 a Organização das Nações Unidas promulgou o dia 27 de janeiro como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto
Em 2005 a Organização das Nações Unidas promulgou o dia 27 de janeiro como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.
Ao fim da Segunda Guerra Mundial, com a derrota do regime nazista na Alemanha e a plena revelação da tragédia do Holocausto, consolidou-se uma expressão que atravessou décadas como advertência moral da humanidade: “Nunca Mais”.
Parecia inconcebível que a exposição do extermínio sistemático de um povo não deixasse marcas tão profundas a ponto de impedir qualquer repetição de tamanha barbárie. Afinal, cerca de seis milhões de seres humanos foram assassinados não por estarem envolvidos em combates, não por representarem ameaça militar ou ideológica, mas simplesmente por existirem.
Não eram combatentes. Eram homens, mulheres, idosos e crianças. Médicos, engenheiros, comerciantes, professores, artistas e estudantes. Não importavam sua nacionalidade, profissão, ideologia, hábitos, aparência física ou grau de religiosidade. Importava apenas uma condição: ser judeu.
Essa identidade bastava para justificar leis discriminatórias, o confinamento em guetos murados e insalubres, a deportação em trens de carga para campos de trabalho forçado e de extermínio, e, por fim, a morte em câmaras de gás. Um regime construiu um pseudoestudo científico para sustentar a ideia de que os judeus seriam uma “raça contaminante”, comparável a um vírus que deveria ser eliminado. Primeiro isolado, depois exterminado.
A Europa falhou em proteger seus judeus — e não apenas a Alemanha nazista. Em diversos países ocupados, colaboracionistas participaram ativamente da perseguição, da denúncia e do assassinato. Ainda assim, é fundamental lembrar aqueles que, com coragem e dignidade, arriscaram suas próprias vidas para salvar judeus durante o Holocausto. Foram eles que mantiveram acesa a chama da humanidade em meio ao horror.
Das cinzas da destruição, o povo judeu demonstrou uma impressionante capacidade de reconstrução. Enquanto a Europa ainda ardia sob o trauma da guerra, judeus e judias trabalhavam para reconstruir sua pátria histórica. Em maio de 1948, foi oficialmente reconhecido o Estado de Israel.
Desde o nascimento, essa nova-velha pátria precisou se defender para sobreviver. Em poucas décadas, Israel consolidou-se como um país moderno, democrático e inovador, com destaque nas áreas da educação, da ciência, da medicina, da cultura e da tecnologia, compartilhando seus avanços com a comunidade internacional.
Em 7 de outubro de 2023, imagens que pareciam pertencer ao passado ressurgiram de forma brutal. Israel foi invadido por terroristas, e cenas de violência extrema — incluindo o assassinato de civis, idosos, crianças e até sobreviventes do Holocausto — chocaram o mundo.
Setenta e oito anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, como explicar mulheres violentadas, crianças assassinadas, famílias destruídas diante dos próprios olhos? Como compreender a condenação dirigida ao país que reagiu a grupos que, há anos, declaram abertamente sua intenção genocida e que, em um único dia, assassinaram mais de mil pessoas?
Ainda assim, vozes influentes — de artistas a acadêmicos e governantes — passaram a apontar o dedo contra Israel e contra os judeus. Como se a autodefesa fosse um crime. Como se o judeu aceitável fosse apenas o judeu morto do passado, e não aquele que hoje se recusa a ser vítima.
A construção de um mundo mais justo exige compromisso com a paz, educação para o respeito às diferenças e o enfrentamento de preconceitos ancestrais. Exige o fortalecimento dos valores da liberdade, da fraternidade e da dignidade humana.
Jáder Tachlitsky, economista, professor de Cultura Judaica e História Judaica e coordenador de comunicação da Federação Israelita de Pernambuco.