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Banco Master e a velha lição da Máfia italiana: quando o crime veste terno

A história ensina que a Máfia italiana jamais prosperou à margem do sistema. Ao contrário: infiltrou-se nele

Por Carlos Frederico Vital

Fachada do Banco Master

A história ensina que a Máfia italiana jamais prosperou à margem do sistema. Ao contrário: infiltrou-se nele. Bancos, fundações, empresas “respeitáveis” e até obras de caridade sempre foram parte do cardápio. O crime organizado, quando amadurece, troca a pistola visível pelo contrato elegante. E é justamente essa lógica que torna o caso do Banco Master tão inquietante — e tão atual.


Respeitadas as diferenças históricas e culturais, o roteiro lembra uma sátira moderna de “O Poderoso Chefão” versão financeira tropicalizada. Não há capos fumando charutos em becos escuros, mas executivos de gravata, fundos sofisticados, retórica religiosa, influência política difusa e uma complexa engenharia de narrativas para confundir opinião pública e instituições.


Na Itália, a Máfia aprendeu cedo que não precisava assaltar bancos: bastava controlá-los. No Brasil, o episódio do Banco Master revela como estruturas financeiras podem ser instrumentalizadas para fins que nada têm de bancários, atuando como engrenagens centrais de esquemas mais amplos de captação, circulação e blindagem de recursos. Tudo embalado por discursos morais, apelos emocionais e, quando necessário, campanhas de intimidação institucional.


A reação após a liquidação extrajudicial é quase caricatural. Ataca-se o Banco Central, questiona-se a Polícia Federal, mobilizam-se ruídos digitais e tenta-se deslocar o debate do campo técnico-jurídico para o espetáculo político. É a velha tática mafiosa: quando o dinheiro é rastreado, ataca-se o árbitro, não o jogo.


Na Itália, esse modelo só começou a ruir quando o Estado decidiu não negociar com a aparência de legalidade do crime. Juízes, promotores e policiais entenderam que respeitabilidade social não é prova de inocência, e que filantropia não absolve engenharia financeira fraudulenta.


O caso Banco Master testa exatamente isso no Brasil: se aprenderemos com a história ou se continuaremos acreditando que organizações sofisticadas demais, religiosas demais ou bem relacionadas demais são “grandes demais” para serem tratadas como aquilo que podem ser — estruturas de poder travestidas de normalidade.


A Máfia italiana levou décadas para ser desnudada. O Brasil ainda está no primeiro ato. A pergunta é se teremos coragem de ir até o fim do filme.

Carlos Frederico Vital
Advogado