° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Ficção e realidade no filme "O Agente Secreto"

A recente premiação com o Globo de Ouro o filme "O Agente Secreto" (2025), dirigido por Kleber Mendonça Filho, lança uma luz sobre os porões da história brasileira e suas veias ainda abertas

Por Marcus Prado

Cena de 'O Agente Secreto'

“Em nosso Relatório Final, identificamos 434 casos documentados de como se deram prisões ilegais, torturas e assassinatos”. (José Paulo Cavalcanti Filho, jurista, escritor, da Academia Brasileira de Letras. Foi da Comissão Nacional da Verdade).

“A imaginação não é mera 'fábrica de fantasias', mas o motor que nos permite vislumbrar a instância da possibilidade” (Søren Kierkegaard).

A recente premiação com o Globo de Ouro o filme “O Agente Secreto” (2025), dirigido por Kleber Mendonça Filho, lança uma luz sobre os porões da história brasileira e suas veias ainda abertas. Ao acompanhar a trama ambientada na repressão universitária pós-AI-5, torna-se impossível não resgatar o retrato vivo de um dos maiores intelectuais do país: o físico recifense Mário Schenberg. Embora mundialmente celebrado como o maior físico teórico do Brasil — tendo colaborado com gênios como Albert Einstein e George Gamow —, Schenberg teve sua trajetória marcada pela defesa intransigente da democracia. Vítima do golpe de 1964, foi aposentado compulsoriamente e proibido de frequentar a biblioteca da USP, instituição que ajudou a engrandecer. Mesmo sob vigilância ou no exílio, utilizou seu prestígio internacional para denunciar o autoritarismo brasileiro. Para ele, sua maior contribuição não residia apenas nos cálculos quânticos, mas no esforço para modernizar a mentalidade política e científica da nação.

Embora Kleber Mendonça Filho não tenha declarado uma inspiração direta, a figura de Schenberg parece transbordar na tela dos cinemas por meio de Armando (interpretado por Wagner Moura). O personagem funciona como uma poderosa metáfora do clima de paranoia que contaminou a sociedade. A obra aborda o impacto devastador da ditadura no ambiente acadêmico, o mesmo cenário onde Schenberg foi "dedurado" por seu colega de cátedra e então reitor da USP, Miguel Reale. Se estivesse vivo, o físico encontraria no filme fragmentos dolorosos de sua própria biografia. É preciso deter-se no papel de Miguel Reale durante sua gestão na USP (1969-1973). Jurista renomado pela “Teoria Tridimensional do Direito”, Reale foi também um articulador civil de regimes autoritários, desde o movimento de 1930 até o golpe de 1964. Sob sua reitoria, a vigilância no campus foi institucionalizada com a criação da Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI). Esse braço do SNI dentro da universidade foi responsável pelo monitoramento, exílio e perseguição de mentes brilhantes, alimentando um ciclo de autocensura que silenciou jornais, artes e salas de aula.

Recuperando o pensamento de Søren Kierkegaard, a imaginação não é mera "fábrica de fantasias", mas o motor que nos permite vislumbrar a “Instância da Possibilidade”. Nesse sentido, “O Agente Secreto” funciona como um vasto painel imaginário. Nele, vislumbramos a esfinge de Schenberg ao lado de outros que resistiram ao silêncio forçado: Paulo Freire (ficou detido numa prisão durante 78 dias), o pernambucano José Leite Lopes, Darcy Ribeiro, Jean-Claude Bernardet, Thomaz Farkas e tantos outros. O cinema, aqui, não apenas entretém; ele devolve a voz àqueles que o regime tentou apagar da história. A maioria dos historiadores e cientistas políticos, dizem que a história não se repete de forma idêntica, mas os fantasmas e métodos autoritários podem ressurgir com novas roupagens, aponta para algo realmente assustador. Fica a resposta nas telas de exibição do consagrado filme.

Por fim, quero enaltecer a memória, coragem e o testemunho de amizade de Jô Soares. Em diversas ocasiões, sabendo que o amigo Mário Schenberg estava sendo perseguido pela polícia e submetido a exaustivos interrogatórios em delegacias de subúrbio, o artista o acolheu, secretamente, em sua casa.

Marcus Prado - Jornalista