Ugo Falangola, o primeiro agente secreto do cinema recifense
O Recife voltou ao centro do cinema mundial com a indicação de O Agente Secreto ao Oscar de 2026
O Recife voltou ao centro do cinema mundial com a indicação de O Agente Secreto ao Oscar de 2026. O feito, histórico, não deve ser lido apenas como o sucesso de um filme ou de um diretor, mas como o ponto de chegada de uma trajetória que começou há mais de um século, de forma silenciosa, quase invisível, com um nome pouco conhecido fora dos círculos especializados: Ugo Falangola.
Italiano radicado no Recife na década de 1920, Ugo Falangola foi o primeiro a perceber que aquela cidade — atravessada por rios, pontes, portos e contradições — era mais do que cenário urbano. Era matéria-prima cinematográfica. Ao fundar a produtora Pernambuco-Film, ao lado de J. Cambieri, Falangola passou a registrar o Recife em transformação, inaugurando o que hoje reconhecemos como o nascimento do cinema pernambucano.
Filmes como Veneza Americana (1925) não apenas documentaram obras públicas e paisagens urbanas, mas criaram uma imagem do Recife para a posteridade. Inseridos no chamado Ciclo do Recife, esses registros colocaram Pernambuco entre os polos mais ativos do cinema mudo brasileiro fora do eixo Rio–São Paulo. Pela primeira vez, o Recife se via na tela.
Como ocorre com muitas experiências pioneiras no Brasil, esse impulso inicial não teve continuidade linear. Vieram décadas de silêncios produtivos, de interrupções e de memória dispersa. Ainda assim, a cidade permaneceu latente, à espera de novas formas de expressão.
Nos anos 1970, o Ciclo do Super-8 devolveu o cinema à cidade. A tecnologia acessível permitiu que uma geração experimental retomasse o gesto fundador: filmar o Recife a partir de dentro. Já nos anos 1990, Baile Perfumado marcou a virada autoral que reposicionou Pernambuco no cinema brasileiro contemporâneo, inaugurando um período de reconhecimento crítico e identidade estética consolidada.
A partir dos anos 2000, o cinema recifense deixou de ser episódico para se tornar sistema. Salas dedicadas à curadoria, formação de público e festivais como o Janela Internacional de Cinema do Recife estruturaram um ecossistema cultural consistente, capaz de dialogar com o mundo.
É nesse percurso que surge O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. Ambientado no Recife de 1977, durante a ditadura militar, o filme transforma a cidade em organismo narrativo central. Não há exotização nem pano de fundo neutro: o Recife é tensão, memória, vigilância e resistência.
A indicação ao Oscar, portanto, tem um valor simbólico maior. Ela conecta o cinema recifense contemporâneo ao gesto inaugural de Ugo Falangola — outro agente secreto, armado apenas com uma câmera, que revelou a cidade quando ainda ninguém sabia que ela precisava ser revelada.
Entre Veneza Americana e O Agente Secreto, há um século de imagens, rupturas e persistência. O reconhecimento internacional de hoje não apaga o passado; ao contrário, o confirma.
Se hoje o Recife é visto, debatido e celebrado no cinema mundial, é porque alguém, um dia, decidiu apontar uma câmera para ele. Em silêncio. Como fazem os verdadeiros agentes secretos.
Luciano Gesteira
Advogado e bisneto de Ugo Falangola