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O Agente Secreto e o poder de uma invenção protegida

O novo filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, ultrapassa o território do thriller político e policial para abordar, de modo sutil e inteligente, um tema central para o Brasil contemporâneo

Por Gustavo Escobar

Wagner Moura em cena de O Agente Secreto

O novo filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, ultrapassa o território do thriller político e policial para abordar, de modo sutil e inteligente, um tema central para o Brasil contemporâneo: a tensão entre o ato de inovar e as estruturas que tentam silenciar ou controlar a criação.

Sem revelar detalhes da trama, há uma passagem em que o gesto de inventar e patentear algo novo, de propor uma solução tecnológica original, torna-se o estopim de um conflito que expõe as relações de poder e preconceito em torno da inovação.

É um dos momentos em que o cinema de Kleber revela sua força simbólica: a criação (e sua proteção) como forma de resistência e afirmação.

Essa tensão não é apenas narrativa. Ela reflete uma realidade conhecida por quem trabalha com propriedade intelectual. Inovar, no Brasil, muitas vezes significa enfrentar barreiras invisíveis – culturais, econômicas e políticas.

A ideia de que a criatividade é um direito, e não um privilégio, ainda causa incômodo em setores acostumados a concentrar poder e recursos.

O que O Agente Secreto retrata, de forma alegórica, tem correspondência direta na vida real. Há mais de duas décadas, atuamos na defesa de empreendedores, inventores e empresas do Nordeste que constroem valor e geram conhecimento, frequentemente em condições desiguais frente a grandes grupos econômicos do eixo Sul–Sudeste ou a multinacionais.

Em diversas disputas judiciais que acabam aflorando nesse contexto, é possível perceber que o litígio não nasce de uma infração efetiva, mas de uma tentativa de desestimular o concorrente regional pelo simples peso econômico, quando não, também político.

Quando essas empresas locais estão bem assessoradas e compreendem o alcance jurídico da propriedade intelectual, seja na proteção de uma marca, de um design, de um software ou de uma patente, o quadro muda.

Há casos emblemáticos em que a Justiça reconheceu o abuso do direito de ação por parte de grandes corporações, enquadrando a conduta como sham litigation, isto é, o uso do processo como instrumento de intimidação e não de legítima defesa de um direito.

A propriedade intelectual, nesse contexto, é mais do que um ramo técnico do Direito. É uma ferramenta de justiça econômica e social. É ela que permite que a inovação floresça fora dos centros tradicionais de poder e que o talento regional seja reconhecido e protegido.

Assim como no filme, em que o ato de criar carrega em si uma dimensão de coragem, no mundo real inovar continua sendo um gesto de ousadia, uma afirmação de autonomia e de identidade.

O Agente Secreto e o poder de uma invenção protegida
Gustavo Escobar *

O Agente Secreto mostra que o Recife pode ser cenário de uma história universal. Do mesmo modo, a experiência de quem trabalha com inovação no Nordeste revela que as grandes ideias não têm CEP nem sede corporativa: elas nascem onde há gente disposta a pensar diferente.

E, por isso mesmo, merecem ser protegidas, garantindo a autoria e o direito de quem transforma criatividade em valor.

Gustavo Escobar - Advogado especializado em propriedade intelectual e sócio--gestor do Escobar Advocacia