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Ode aos avós

A primeira bênção de São Félix do ano aconteceu no dia 2 de janeiro

Por Luciana Grassano Melo

Avós

A primeira bênção de São Félix do ano aconteceu no dia 2 de janeiro. Para quem não conhece, a bênção de São Félix é uma tradicional prática religiosa católica, difundida pela Ordem dos Frades Menores Capuchinhos no Brasil. É considerada um rito sacramental, que ocorre normalmente às sextas-feiras, em conventos e igrejas capuchinhas.

O rito envolve a imposição de óleo com que o frade, durante a bênção, unge a testa dos fiéis, simbolizando um pedido de proteção para o corpo, a mente e o espírito. Inclui, também, orações de gratidão e pedidos de intercessão de São Félix de Cantalice para a saúde, paz e fortalecimento da fé, além de uma benção final, em que o padre asperge os fiéis com água benta - sacramental poderoso para a purificação.

É uma tradição muito forte entre nós, pernambucanos, e para os recifenses em especial, já que a bênção é considerada patrimônio cultural imaterial do Recife, como diz a lei municipal n. 19.235/2024. São centenas de fiéis que vão às sextas-feiras à Basílica da Penha, no centro da cidade, ou ao Convento de São Félix, no Pina, em busca de renovação espiritual, cura e agradecimento. O óleo é preparado em missa no dia 18 de maio - dia de São Félix, para uso durante todo o ano.

Entre as memórias que guardo da infância, tenho especial devoção pela lembrança das inúmeras vezes em que fui à Igreja da Penha, com minha avó Maria, receber a bênção de São Félix.

Saíamos de ônibus de Olinda, onde ela morava, para assistirmos à missa e recebermos juntas a bênção. Eu tive a felicidade de frequentar muito a casa de meus avós na infância, e frequentemente passava os fins de semana com eles.

Tenho lembrança das nossas conversas, enquanto vovinha comia as mangas que tirava da bacia, ou do momento da ceia, sempre tão cedo, quando meu avô se deleitava com seu sanduiche de pão francês com goiabada.

Vovô Ernesto falava sempre de Lampião, o rei do cangaço e governador do Sertão. Acho que foi da boca dele que escutei pela primeira vez a expressão cabra de peia, referindo-se tanto a Lampião, como a alguns de seus netos, mais destemidos e corajosos. Sempre que falava de Lampião, vovô se referia ao seu nome verdadeiro, que jamais esqueci: Virgulino Ferreira da Silva.

Vovô não ia à bênção de São Felix conosco, mas era, ao seu modo, também muito religioso. Lembro que, sempre, antes de dar partida no motor de seu fusquinha amarelo manteiga, beijava um crucifixo magnético que mantinha no console do automóvel.

Das melhores recordações que guardo era quando chegava a hora de irmos embora e eles iam levar-nos no portão da frente da casa. Nessa hora, vovô era que nos dava a bênção de despedida. Ele dizia: “Deus os leve, Deus os traga, com um galho de flor”.

Só depois de muitos anos, descobri que essa é uma expressão que aparece em obras literárias gaúchas, e reflete a cultura rural e a forte conexão com a natureza e a fé, o que é a cara de vovô Ernesto, natural de Belém de Maria e promotor na comarca de Catende, durante toda a sua vida.

Dedico essa crônica a ele, que nasceu no dia 2 de janeiro. A ele também dediquei algumas das minhas orações de gratidão, na primeira bênção do ano, que recebi no Convento de São Félix – a casa de Frei Damião.

Painho tinha razão quando dizia a seus netos: – Quem tem avô, não sofre.

* Professora titular da Faculdade de Direito da UFPE e procuradora do Estado de Pernambuco