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Marília Machel e Bruno Cawai: uma crítica à periodização

Em artigo anterior, prometi compartilhar minhas impressões, ainda que resumidas, sobre a obra coletiva "A Época Moderna" (Editora Vozes)

Por Marcus Prado

A análise de Machel é pautada pela desconstrução do conceito de Modernidade

Em artigo anterior, prometi compartilhar minhas impressões, ainda que resumidas, sobre a obra coletiva “A Época Moderna” (Editora Vozes). Do volume, destaco a contribuição de dois pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): Marília de Azambuja Ribeiro Machel e Bruno Cawai Souto Maior. O projeto editorial possui um propósito bem definido por sua equipe central: adotar uma abordagem radicalmente nova para uma questão que, pela atualidade e multiplicidade de ideias, tem sido um desafio nos meios acadêmicos brasileiros e internacionais. Trata-se de um trabalho de rigorosa seleção editorial, conduzido por André de Melo Araújo, Andréa Doré, Luís Filipe Silvério Lima, Marília de Azambuja Ribeiro Machel e Rui Luiz Rodrigues, todos integrantes da Rede Brasileira de Estudos em História Moderna. A crítica à chamada "periodização" fundamenta-se, neste livro, no questionamento de visões etnocêntricas e europeizantes, bem como em seu caráter "etapista" — uma interpretação historiográfica que concebe a trajetória humana como uma progressão linear através de estágios ou modos de produção predeterminados. Nessa perspectiva tradicional, a história torna-se seu próprio objeto, voltada à construção de um futuro planejado.

A análise de Machel é pautada pela desconstrução do conceito de Modernidade. Ela e seus colegas defendem que a "Época Moderna" é, antes de tudo, uma operação discursiva. Para a autora, delimitar cronologicamente uma era não é apenas um exercício de datas, mas uma tentativa de conferir sentido ao passado. Ela vê a modernidade não como um bloco monolítico que se encerra para dar lugar ao "pós", mas como um conceito funcional que deve ser repensado criticamente a partir de diferentes contextos, inclusive o brasileiro. Periodizar é estabelecer marcos e, como tal, é um ato ideológico condicionado pela sociedade que o concebe. Essa perspectiva de desconstrução remete ao filósofo francês Jacques Derrida. Para ele, desconstruir não significa destruir, mas desmontar uma estrutura para compreender seu funcionamento. Como frequentemente menciono em meus escritos, a desconstrução em Derrida não é uma ferramenta externa aplicada a um texto, mas algo que já ocorre em seu interior; uma estratégia de leitura que revela contradições e instabilidades em qualquer sistema de pensamento. No caso dos mitos e grandes narrativas, o objetivo é expor preconceitos ou ideologias ocultas, analisando a modernidade como um fenômeno de comunicação e cultura, e não meramente como progresso linear. Marília de Azambuja Ribeiro Machel possui uma trajetória acadêmica sólida: graduada e mestre pela UFRGS, é doutora pela Università degli Studi di Firenze (UNIFI). Atualmente, é Professora Titular de História Moderna e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História da UFPE, dedicando-se ao estudo da comunicação política e da circulação de notícias na Época Moderna.

Em parceria, Bruno Cawai Souto Maior de Melo e Marília Machel contribuem para a coletânea com o ensaio "O sistema político e estruturas de poder". Escudados em rica bibliografia, os autores afirmam que “uma nova história política, interessada na natureza discursiva e simbólica das relações sociais, tem reescrito historicamente uma época moderna sem mais vínculos teleológicos com o presente”. Bruno Cawai, mestre e doutor em História pela UFPE, é professor de História Moderna na mesma instituição, atuando no corpo docente do PPGH e do Mestrado Profissional em Ensino de História. É também coordenador do Laboratório de Estudos do Mundo Atlântico (LEMAtl).

Por fim, cabe destacar o excelente trabalho de edição desta antologia. A obra sobressai não apenas pela escolha dos colaboradores, todos vinculados ao rigor acadêmico, mas também pela estrutura de cada ensaio de prospecção histórica. Ao final de cada capítulo, o leitor encontra uma bibliografia comentada — que é muito mais do que uma simples lista de referências. Trata-se de uma ferramenta intelectual que evidencia a profundidade da pesquisa de cada autor e serve como um verdadeiro "mapa da mina" para quem deseja aprofundar-se no tema.

Marcus Prado - Jornalista