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As(os) donas(os) da verdade (ou sobre uma possível outra era)

A "verdade" pode ter sido definida e discutida inúmeras vezes, mas jamais cansamos de buscar a "verdadeira verdade" por trás ou por dentro dessa palavra-tabú

Por Clarissa Duarte

A "verdade" pode ter sido definida e discutida inúmeras vezes, mas jamais cansamos de buscar a "verdadeira verdade" por trás ou por dentro dessa palavra-tabú

A “verdade” pode ter sido definida e discutida inúmeras vezes, mas jamais cansamos de buscar a “verdadeira verdade” por trás ou por dentro dessa palavra-tabú.

Sua interface com a cultura de um grupo ou de uma comunidade nos estimula a classificá-la ou interpretá-la como termo sinônimo à “crença”, quase sempre rotulando as “donas” e “donos” de “verdades” como seguidoras e seguidores de dogmas irreversíveis e imutáveis.

Em tempos de IA não mais confiamos nas verdades impostas pelas redes, ou confiamos cegamente. A gravidade desse fenômeno parece estar menos na dúvida e mais na escala e velocidade com as quais múltiplas (in)verdades são transmitidas.

Mais um conflito interno invade a humanidade, como se não bastassem os tantos outros que já colecionamos.

Em quê e em quem acreditar? Por que e para quê acreditar?

Nunca me pareceu tão inútil tentar nos posicionar na verdade de alguém, de algum grupo, lider ou partido.

Se há tempos foi deturpado o que se entendia como “política” (organização da vida comunitária na polis), na era que se diz como a da “pós-verdade”, quando reina a banalização de “inverdades”, parece impossível encontrarmos o “verdadeiro significado” das coisas ou a “verdadeira intensão” dos seres e de suas atitudes.

Em um mundo cada vez mais binário, quantitativo e artificial, o dilema “acreditar ou não acreditar” passa a ser a grande questão. Interrogações existenciais e profundas como a de Shakespeare foram suplantadas pela ansiosa crença em (in)verdades superficiais.

Pouco importa o que somos ou o que sentimos de fato. Parece que o “simular ser ou sentir” é o que vale, o que conta e o que comunica. Nos alimentamos de vazios vãos, de angústias fantasiadas com filtros coloridos, descritas por textos produzidos por uma inteligência sem nossa essência.

Essência? De quê? De quem? Buscar essa essência não seria o mesmo que tentar ir em direção à verdade? Mas como seguir nesse caminho sem o auto(re)conhecimento, o autorrespeito e o autocuidado?

Afirma-se, sempre com veemência, que “ninguém é dono da verdade”. Por nos distanciarmos de nós mesmas(os), brigamos e matamos pela propriedade daquilo que nem sabemos que não pode nos ser roubado.

Quando vamos compreender que somos todas e todos donas e donos das nossas próprias verdades? Quando vamos internalizar que é possível ter consciência de nossos próprios valores e confiança em nossa essência sem precisar julgar, menosprezar ou aniquilar as verdades alheias?

O oposto da verdade não é necessariamente a mentira, assim como o oposto da paz não precisa ser a guerra. Vivemos em ciclos, mergulhados no conflito constante entre diversos tipos de opostos, dentro e fora de nós. Aceitar esses nossos conflitos pode ser justo a chave para nos aproximarmos da paz interna e mundial desejada.

Talvez só precisemos de mais humildade, da consciência da indissociabilidade entre o uno e o múltiplo, para acreditar na possibilidade de vivermos na era das multi-verdades, na era do efetivo respeito à integridade, à diversidade de pensamentos individuais e coletivos; a era das multi-inteligências, capazes de eliminar disputas econômicas destrutivas por energias fósseis e focar na autoeficiência energética humana e ambiental.

Clarissa Duarte - Arquiteta e urbanista, professora pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco