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Banalização da Cultura?

Por Raimundo Carrero

Raimundo Carrero

As recentes exibições de Lady Gaga e de Shakira em Copacabana reunindo dois milhões de pessoas cada uma, nos leva a uma cuidadosa reflexão sobre aquilo que está sendo chamado de banalização da cultura ou da decadência do conceito de cultura, conforme o questionamento dos principais estudiosos do nosso tempo, considerando, sobretudo, o exame do peruano Mário Vargas Llosa no seu livro “A Civilização do Espetáculo”, publicado no Brasil pela editora Objetiva e que faz uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, com tradução de Lúcia Benedetti. Há uma expectativa de números ainda maiores nos próximos eventos, entre eles o da brasileiríssima Anitta e até o de Ludmila. A respeito da agressividade do tema é possível até acreditar num questionável movimento anticultural, o que não seria de todo desnatural.

Este artigo não é uma crítica negativa aos shows, mas uma constatação histórica, conforme o livro já clássico de Vargas Llosa, dos antropólogos, e dos sociólogos, estudiosos daquilo que se convencionou chamar de cultura contemporânea, incluindo aí os analistas da própria palavra “cultura”, que, segundo eles, produz o efeito de se transformar em algo amorfo, vazio, um vácuo que possa ser preenchido por qualquer coisa. Não se trata, no entanto, do gosto ou não gosto, compreendo ou não compreendo, mas de reflexão e análise. Até porque, conforme Michel Henry, em “A Barbárie”, que destaca Vargas Llosa, a banalização ou decadência da cultura se instala nitidamente com o fim da cultura ocidental e suas formas de determinação dos valores, portanto sua moral e suas formas de determinação da verdade – portanto, sua epistemologia.

Registre-se também o movimento de contracultura que sacudiu a América do Norte nos anos 1960 do século passado, que se insere no quadro da decadência da cultura quando revolveu todos as linhas da cultura tradicional, sobretudo na música e na literatura, consolidando o primeiro megaevento musical em Woodstock com centenas de jovens drogados que venderam milhares de exemplares de escritores com uma linguagem muitas vezes ininteligível, como o clássico “On The Road”.

Um dos grandes escritores universais que se detiveram sobre o estudo da cultura e suas ramificações foi T. S. Eliot, citado várias vezes por antropólogos e sociólogos. Para ele, não se pode esquecer, por exemplo, o fundamento da cultura, sobre o qual reflete e questiona as demais noções – aliás, este é o estudioso mais citado, justamente, pela genialidade de sua obra, incluindo aí a genial poesia. O genial inglês escreve que a cultura se transmite através da família e, quando esta instituição deixa de funcionar, o resultado é a deterioração da cultura, algo do que se aproveitam os sociólogos para a crítica da sociedade contemporânea. Aí estaria o fundamento da deterioração de nossa sociedade… No Brasil, Antônio Cândido ainda considera que a cultura é um processo integrado à sociedade e à literatura.