Madeira do Rosarinho, madeira que o cupim não rói
Bloco lírico resistiu às mudanças do tempo e chega aos 100 anos entre os homenageados do Carnaval do Recife de 2026
Em 100 anos de história, o bloco lírico Madeira do Rosarinho nunca deixou de competir nos concursos de carnaval do Recife. Nesse período, enfrentou diversas agremiações, conquistando 35 vitórias, além de mais de 20 vice-campeonatos. Muitos de seus adversários nasceram e sucumbiram ao tempo nessa trajetória, mas o bloco seguiu firme, provando que é mesmo “madeira que o cupim não rói”, como diz seu hino. Uma história de tradição e resistência que, neste ano, é homenageada pelo carnaval da capital pernambucana.
Tantos títulos são resultado da dedicação incansável do Madeira, que a cada ano sempre desenvolve um novo tema para desfilar na folia. Em 2026, o centenário naturalmente será o fio condutor da apresentação.
“A gente deveria começar a se preparar, no mínimo, seis meses antes do carnaval, mas nunca é assim por falta de condições financeiras. Temos que correr atrás de vender o peixe”, explica o presidente da agremiação, Regivaldo Vaz Curado, o Duca, de 62 anos.
O gestor avalia que o bloco deve gastar R$ 50 mil reais para desenvolver o tema deste ano, mas o valor costuma ser alcançado com os lucros obtidos nas atividades realizadas na sede da agremiação, como os bailes de brega romântico, que acontecem aos sábados. Tudo é convertido em alas e fantasias para cerca de 180 integrantes, que são desde jovens de 17 anos a senhoras com mais de 70. “Todo mundo quer sair na beca, porque o Madeira é o Madeira”, comenta Duca.
Para se ter ideia da relevância do bloco, basta lembrar que o seu hino, o já citado “Madeira que o cupim não rói”, rompeu os limites do carnaval e foi incorporado ao repertório dos pernambucanos, sempre que buscam defender as tradições do estado. No entanto, a música tem origem em um contexto específico que poucos conhecem: em 1962, o Madeira perdeu o concurso de carnaval para o Batutas de São José, após uma votação controversa. Inconformada, a agremiação encomendou a música a Capiba, para reforçar que “queiram ou não queiram os juízes, o nosso bloco é de fato campeão”.
FUNDAÇÃO
O espírito aguerrido é ressaltado pelos carnavalescos do bloco desde a sua fundação. Em 7 de setembro de 1926, foliões dissidentes do bloco lírico Inocentes do Rosarinho se reuniram debaixo do pé de uma Gogoia para planejar como contornar as divergências com a diretoria da agremiação e fundaram seu próprio bloco. Para homenagear a espécie que acolhia o grupo sob a sombra, o batizaram de Gogoia, mas, depois, preferiram destacar a resistência da árvore reformulando o nome para Madeira Que Cupim Não Rói, até que, por fim, abreviaram para Madeira do Rosarinho.
Por trás da garra que perpetua o bloco através das gerações está somente o amor pelo carnaval. “A gente tira dinheiro do bolso, faz com ajuda de amigo, tudo por amor. Não temos outros apoios”, revela Duca. No entanto, ele alimenta a esperança de contar com mais recursos, depois do reconhecimento recebido pela homenagem no Carnaval do Recife. “Muita agremiação fala bem da nossa recreação na sede, mesmo que ainda falte muita coisa. Quem sabe agora consigo com a Prefeitura uma reforma para melhorar a estrutura?”, especula.
Mas o carnavalesco já se sente grato apenas com a homenagem. “É importante para deixar o Madeira vivo, fazendo que os foliões gostem cada vez mais da gente e lembrando da gente. São essas coisas que fazem o bloco crescer”, acrescenta. Para completar as comemorações, a gestão espera que o centenário seja coroado por mais uma vitória no carnaval e, caso isso se concretize, promete realizar mais uma edição do Bacalhau do Madeira para comemorar meses depois.