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Brasileira com doença degenerativa vai à Suíça para suicídio assistido

Em vídeo publicado nas redes sociais no dia do procedimento, Célia Maria Cassiano disse que lutou pelo "direito à morte digna"

Por Eduarda Carvalheira

Natural de Campinas, São Paulo, Célia construiu carreira na área das artes

A morte da professora e pesquisadora brasileira Célia Maria Cassiano, nessa quarta-feira (15), em Zurique, na Suíça, reacendeu o debate sobre suicídio assistido. Diagnosticada há dois anos com atrofia muscular progressiva (AMP), doença degenerativa que compromete gradualmente os movimentos, ela deixou o Brasil para realizar o procedimento, permitido no país europeu sob critérios específicos.

Natural de Campinas, São Paulo, Célia construiu carreira na área das artes, com formação em Ciências Sociais e mestrado em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ao longo dos últimos meses, passou a compartilhar nas redes sociais o avanço debilitante da doença e o desconforto causado pela perda de autonomia.

Em um dos relatos, descreveu a condição como “incapacitante” e imprevisível. “Eu vivo meus piores pesadelos, porque não tenho ideia de como estarei amanhã”, disse. Com a evolução do quadro, as mudanças ficaram ainda mais difíceis de ignorar: tarefas simples, como se alimentar ou tomar banho, passaram a exigir ajuda constante.

Além das limitações físicas, a professora também mencionou angústias mais pessoais, como o isolamento social. “A maior parte do tempo eu fico só com profissionais que estou pagando para cuidar de mim”, relatou.

Em março deste ano, após notar alterações na voz, outro possível sinal de progressão da doença, Célia formalizou um documento de Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV), registrando que não desejava ser submetida a procedimentos invasivos para prolongar a vida.

A viagem à Suíça foi inicialmente mantida em sigilo. No dia 11 de abril, ela publicou imagens em Zurique e afirmou que participaria de um tratamento experimental. Apenas no dia da morte, revelou que havia organizado, ao longo de sete meses, o processo de suicídio assistido com o apoio de uma organização especializada.

Em uma gravação feita antes do procedimento, Célia explicou ter tomado a decisão após uma longa reflexão. Disse não querer viver em condição de dependência total ou ligada a aparelhos e relatou as dificuldades para viabilizar o processo. Segundo ela, encontrou resistência ao buscar apoio no Brasil e precisou mudar de estratégia para reunir documentos e laudos necessários.

“Pedi ajuda para amigos, pedi ajuda para advogados, tradutores. Ninguém queria me ajudar. As pessoas simplesmente fugiam, caíam fora, desconversavam. Então, o que eu fiz? Eu mudei de estratégia. Porque eu precisei de um advogado para me ajudar a retirar documentos no fórum. Precisei de várias pessoas, laudos médicos, laudos de dentista", desabafou. "Me desculpem, eu menti para todos vocês”.

Ainda no registro, declarou estar no "limite da dignidade" e ter vivido "uma vida deliciosa e os últimos dias aqui foram os melhores da minha vida”. Ao final, fez um apelo: “Lutem por esse direito no Brasil”.

No Brasil, tanto a eutanásia quanto o suicídio assistido são ilegais e podem ser enquadrados como homicídio ou indução ao suicídio, de acordo com o Código Penal. Já a ortotanásia é permitida pelo Conselho Federal de Medicina e autoriza pacientes terminais a recusarem intervenções que apenas prolonguem a vida sem perspectiva de cura.

Em contraste, países como Suíça, Canadá e Colômbia autorizam o suicídio assistido sob regras rigorosas, que incluem avaliação médica e manifestação voluntária do paciente. No caso suíço, a legislação permite o procedimento desde que não haja motivação considerada “egoísta”.