O Realismo mágico existe?
Primeiro texto da coluna Diario Cultural, assinada pelo escritor Raimundo Carrero
Publicado: 18/04/2026 às 09:45
Raimundo Carrero (Marina Torres/DP Foto)
Começo com uma declaração, no mínimo, polêmica: Em surpreendente entrevista ao jornalista Plínio Apuleyo Mendoza, seu amigo e confidente desde a juventude, o escritor Gabriel García Márquez, confessou que o movimento literário Realismo Mágico, celebrado na Europa e na América, nunca existiu. Pelo menos não nos moldes que lhe emprestaram os críticos literários. Para ele, tudo que escreveu é real e verdadeiro, resultando no Prêmio Nobel de Literatura em 1982.
O jornalista insistiu: “O tratamento da realidade nos seus livros, principalmente, em ‘Cem anos de Solidão’ e em ‘O Outono do Patriarca’, recebeu um nome, o de Realismo Mágico. Tenho a impressão de que seus leitores europeus, costumam perceber a magia das coisas que você conta, mas não veem a realidade que as inspira…”
Gabriel definiu: “Certamente, porque o seu racionalismo os impede de ver que a realidade não termina no preço dos tomates ou dos ovos. A vida cotidiana na América Latina nos demonstra que a realidade está cheia de coisas extraordinárias”.
A esse respeito costumo sempre citar o explorador norte-americano F. W.Up de Graff, que, no final do século 20, fez uma viagem incrível pelo mundo amazônico, onde viu, entre outras coisas, um arroio de água fervente e um lugar onde a voz humana provocava chuvas torrenciais. Em Comodoro Rivadávia, no extremo sul da Argentina, os ventos do dia seguinte levantaram pelos ares um circo inteiro. Os pescadores tiraram em suas redes cadáveres de leões e girafas. Em “Os Funerais de Mamães Grande” conto uma impensável, impossível viagem do Papa a uma aldeia colombiana. Lembro-me de ter descrito o presidente que o recebia como calvo e rechonchudo, a fim de que não parecesse com o que então governava o país que era alto e ossudo. Onze anos depois de Gabriel García Márquez ter escrito “Cem Anos de Solidão”, apareceu em Barranquilla um rapaz confessando ter um rabo de porco. Basta abrir um jornal para ver que entre nós acontecem coisas extraordinárias todos os dias. Conheço gente inculta que leu “Cem Anos de Solidão” com muito prazer e com muito cuidado, mas sem surpresa alguma, pois, afinal, não não lhes contou nada que não pareça com a vida que eles vivem.
Então tudo o que você põe nos seus livros tem uma base real?
- Não há nos meus livros uma linha só que não esteja baseada na realidade...