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Golpe de Estado suspende transição no Sudão

Por: AFP

Publicado em: 25/10/2021 18:29

 (Foto: AFP)
Foto: AFP
O general sudanês Abdel Fattah al Burhan dissolveu, nesta segunda-feira (25), o governo de transição do país, cujos membros civis foram quase todos detidos, e decretou estado de emergência, enquanto nas ruas as manifestações pró-democracia já deixaram dois mortos e dezenas de feridos.

No início da manhã, o primeiro-ministro Abdallah Hamdok, sua esposa, vários ministros e todos os membros civis do Conselho Soberano - maior autoridade da transição - foram detidos pelos militares, segundo a Anistia Internacional.

A manobra militar foi condenada pela comunidade internacional. A ONU pediu a "libertação imediata" do primeiro-ministro e os Estados Unidos suspenderam sua ajuda e exigiram a restauração de um governo civil.

A pedido de Grã-Bretanha, Estônia, França, Irlanda, Noruega e Estados Unidos, o Conselho de Segurança da ONU deve realizar uma reunião de emergência na terça-feira para tratar da crise no Sudão, informaram diplomatas à reportagem.

Na noite de segunda-feira, horário do Sudão, as redes sociais estavam repletas de imagens de manifestantes determinados a defender a transição democrática que começou após o afastamento do ditador Omar al Bashir em 2019.

"O povo escolheu um Estado civil" e "não um poder militar", declararam alguns manifestantes em Cartum durante o dia, confirmaram jornalistas da AFP.

O exército matou três manifestantes e feriu pelo menos 80, informou o Comitê Central de Médicos do Sudão, um sindicato independente, à tarde.

A televisão estatal está sob poder dos militares e, no meio da manhã, o general Abdel Fattah al Burhan deu uma declaração.

Apesar de repetir que deseja uma "transição civil e eleições livres em 2023", após 30 anos de ditadura de Omar al Bashir, o general afastou de suas funções todas as autoridades civis.

O governo está dissolvido, incluindo o Conselho Soberano, afirmou. Prefeitos e ministros estão destituídos, e o estado de emergência vigora em todo país, completou.

"Desobediência civil"
Rapidamente depois dos anúncios do chefe do Exército, os diferentes sindicatos, grupos ativistas da revolta de 2019 e outros movimentos pró-democracia pediram à população para aderir a uma mobilização de "desobediência civil" e de "greve geral", na linha da convocação para "protestos contra o golpe de Estado" lançada pelo escritório de Hamdok.

Segundo Jonas Horner, pesquisador do International Crisis Group, "este é um momento existencial para os dois lados", civil e militar.

"Este tipo de intervenção [...] reintroduz a ditadura como opção", acrescentou, em declarações à AFP.

Por sua parte, os Estados Unidos anunciaram a suspensão de uma ajuda financeira de 700 milhões de dólares ao Sudão e exortaram os "oficiais militares a libertarem imediatamente todos os atores políticos, para protegê-los" e a deixarem de recorrer à "violência".

Temendo pela vida de Hamdok, detido em um local não identificado, seu gabinete advertiu que as autoridades militares têm "toda responsabilidade sobre sua vida, ou morte", em um país que registrou uma tentativa de golpe no mês passado.

Michelle Bachelet, a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, disse temer que um "desastre" ocorresse se "o Sudão regredir [...] após décadas de ditadura".

O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou o "golpe de Estado militar" e exigiu que a "carta constitucional" seja respeitada.

Esse texto, assinado por todos os responsáveis anti-Bashir em 2019, prevê eleições no final de 2023 e uma transição civil, com a qual o general Burhan afirmou seguir comprometido enquanto decide um novo governo e um novo Conselho Soberano.

A Liga Árabe também manifestou "profunda preocupação" e pediu a todas as partes que respeitem o acordo de divisão do poder.

Diante dos apelos, o general Burhan disse que o país respeitará os acordos internacionais assinados. O Sudão é um dos quatro países árabes que normalizaram, recentemente, as relações com Israel.

De novo nas ruas
Nas ruas de Cartum, onde o serviço de telecomunicação é cada vez mais inconstante, muitos sudaneses protestaram e vaiaram o general Burhan.

"Não aceitaremos um regime militar. Estamos dispostos a dar nossas vidas pela transição democrática", declarou à AFP um deles, Haitham Mohamed.

O Sudão enfrenta uma transição política precária, marcada por divisões e por lutas de poder desde a queda de Bashir em abril de 2019. 

Desde agosto, o país está sob o comando de uma administração cívico-militar, responsável por conduzir o país para uma transição democrática plena sob gestão civil. O objetivo é organizar, no fim de 2023, as primeiras eleições livres no país em três décadas.

Nos últimos dias, porém, a tensão aumentou entre os dois lados. Em 21 de outubro, dezenas de milhares de sudaneses participaram de passeatas em várias cidades para apoiar a transição de poder para os civis e contra-atacar uma "manifestação" iniciada dias antes, diante do palácio presidencial de Cartum, para exigir a volta do "governo militar".
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