Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Notícia de Últimas

HISTÓRIA

Advogado, filho de árabe e índia, relata a história das suas raízes

Publicado em: 24/10/2021 17:39 | Atualizado em: 25/10/2021 18:17

 (Foto: Cortesia)
Foto: Cortesia
A história das raízes de Jocelio Bezerra, jovem índio, de 26 anos, que atualmente trabalha como advogado trabalhista no Recife, é repleta de muitas dificuldades, que foram superadas aos poucos, através de muito sacrifício, força de vontade e da máxima dedicação nos estudos. A história da família de Jocelio, que pediu para não revelar os nomes dos familiares, começa com a imigração do seu avô paterno, que saiu da Síria, fugindo do início dos regimes do general Hafez al-Assad, que tomaria o poder daquele país após um golpe de estado, em 1970.

Na embarcação de fuga que estavam, o pai de Jocelio nasceu, porém a mãe da criança foi a óbito após o parto. Assim, o bebê teve que ser criado pelo pai, e ambos passaram por muitas dificuldades até chegarem no Brasil, em 1971, quando se instalaram no interior do Ceará. Não conseguindo se adaptar ao local, o avô de Jocelio partiu com o filho para morar em Fortaleza. “Meu pai costumava dizer que naquela época não existia tanta burocracia para os imigrantes obterem permissões e documentos para mudar de nome e ter uma nova vida”, afirmou Jocelio. 

Graças a essa menor burocracia, seu avô conseguiu para si e para o filho nomes brasileiros, aos quais conseguiram se adaptar. Apesar do medo da deportação, não perderam a ligação com a cultura árabe, mantendo o idioma, a forma de falar e as gírias combinadas com o portugês, as tradições culinárias, e principalmente o islã. Para sobreviver, o avô trabalhou como sapateiro por muito tempo, ofício que também foi aprendido pelo filho, levando ambos a trabalharem nas ruas. Aos 14 anos, o pai de Jocelio começou a fazer trabalhos com caminhões, até conseguir comprar o seu primeiro caminhão para fazer transporte de cargas, inicialmente apenas dentro do Ceará.

“Em certa hora, meu pai foi separado do meu avô, que foi assassinado na rua e até hoje não temos muitos detalhes do ocorrido”, explicou Jocelio. Vivendo sozinho, seu pai começou a viajar para destinos cada vez mais distantes, mantendo vivas as suas raízes e as lembranças da sua cultura. Quanto mais ele viajava, mais crescia com seu próprio negócio e se aprofundava no trabalho de caminhoneiro.

Com rotas mais longas, seu pai passou a trafegar por outros estados e, aos 18 anos, começou a realizar viagens na divisa entre o Amazonas e o Acre, para o Exército Brasileiro, transportando objetos fundamentais para os militares. “Em uma dessas idas à Região Norte, ele conheceu minha mãe e se afeiçoou por ela, em uma beira de estrada, porque naquele tempo existia o costume de índias irem à beira de estradas para receberem presentes, por serem pessoas muito gentis, sensíveis e, principalmente, inocentes”, afirmou o advogado. 

A RESERVA INDÍGENA

O pai de Jocelio, em uma das viagens ao Norte, após não encontrar aquela mulher, por quem estava apaixonado, decidiu adentrar-se na mata à procura dela, até encontrar a reserva onde a índia morava, lugar onde Jocelio nasceu e foi criado. A tribo ficava à beira do Rio Amônia, que banha o Acre, e seu povo era da etnia Ashaninka, que não tem origem brasileira, tendo migrado de países vizinhos, principalmente do Peru. Segundo Jocelio, a etnia Ashaninka só foi reconhecida no Brasil depois da constituição de 1988, e ainda é uma das etnias que mais cultiva e preserva suas raízes culturais no País.

No entanto, os obstáculos e diferenças culturais encontrados inicialmente pelo pai de Jocelio, rapidamente aumentaram a afeição daquele homem pelo lugar, que até então estava intocado pelo crescimento do Brasil, e por seus habitantes. Todo o afeto demonstrado comoveu os avós maternos de Jocelio, bem como os demais índios, que passaram a respeitar e nutrir um grande carinho por ele. Jocelio considera todos esses índios como parentes, pois essa é uma das características culturais dos “Ashen%u0129ka”, como se autodenominam, cuja tradução, da língua Arawak (ou Aruak) para o português, pode ser interpretada como “meus parentes”, “minha gente”, “meu povo”.

Como frutos desse amor multicultural, os pais de Jocelio geraram cinco filhos, sendo ele o caçula da família. Apesar de terem usufruído de uma boa infância, todos os irmãos de Jocelio, bem mais velhos do que ele, decidiram seguir seus próprios caminhos durante a adolescência, desmembrando-se da família. "Hoje tenho pouquíssimo contato com eles, pois não foi criado um vínculo familiar tão forte”, disse o advogado. Sob esse contexto, Jocelio nasceu, no ano de 1995, como fruto de uma tentativa de sua mãe de ter uma filha.

“A tentativa de ter uma filha ocorreu devido a um sonho que minha mãe teve, no qual dava à luz uma menina. Esse tipo de sonho é conhecido como ‘Sonho do Aruá’, que tem alta chance de se concretizar por ter ocorrido durante a lua cheia, e foi o que deu grande esperança para minha mãe, que é devota de Caipora, uma das entidades que ela mais cultuava e a quem fez diversas orações para que seu sonho se concretizasse”, explicou o advogado.

Com a pouca estabilidade oferecida pelo trabalho do pai, Jocelio cresceu em um cenário de condições financeiras precárias, em que a maior fonte de alimento era proveniente da terra, e esse tipo de sustento muitas vezes passava por diversas dificuldades. “Os períodos mais complicados na reserva eram os de seca e de chuva, quando a macaxeira era afetada na terra, sendo necessário buscar frutas ou animais para alimentação, e ainda assim ficávamos subnutridos. Para sobreviver aos tempos de inundação, minha mãe me ensinou a comer terra, pois matar a fome era uma necessidade, porque até os peixes desapareciam da bacia do Rio Amônia”, relatou.

Com o passar do tempo, as coisas foram mudando em grande velocidade, e novas situações chegaram a ameaçar os índios, como é o caso do garimpo, que se formou como algo forte e perigoso no território indigena. “Minha mãe sempre dizia que nunca fugiria da sua terra, e que ali morreria, se fosse necessário”, disse, relembrando as palavras da mãe. 

Porém, por mais resistente e leal à terra que a mãe de Jocelio fosse, chegou um momento em que não foi mais possível continuar na reserva, pois massacres começaram a ocorrer contra os índios, de acordo com o advogado. “Homens sem coração estavam matando muitos do nosso povo, então, mesmo com receio de abandonar a terra, minha mãe aceitou a ideia do meu pai de fazer uma viagem de caminhão até São Paulo, em busca de uma vida melhor e menos perigosa. Muitas crianças estavam morrendo, os homens estavam dizimando meus parentes e outros índios de etnias vizinhas”, narrou com profunda tristeza.

CHEGANDO À METRÓPOLE 

Após a fuga para São Paulo, Jocelio conta que tudo era muito novo para ele, e que seu único conhecimento das tecnologias do mundo fora da reserva se resumia ao caminhão do pai.   Ao chegar na cidade, com 11 anos, a dificuldade de adaptação a tantas novidades afetou intensamente Jocelio e sua mãe.

“É uma ótima cidade, que abraça a todos, mas para uma criança indígena, criada na mata, era como viver em uma selva de pedra. Minha mãe também sofreu muito para se adaptar, passou semanas sem comer, tomando apenas Kamarãpi, uma bebida de mandioca mascada. Ela só tomava essa bebida natural e dormia, tudo era novo e assustador para ela também”, mencionou angustiosamente.

Por conta do tempo que passava viajando e da saúde deteriorada, o pai de Jocelio apresentou a mulher e o filho a um casal de amigos de infância, que tinha uma condição financeira um pouco melhor e que se compadeceu da situação, sendo considerados como padrinhos pelo advogado. “Meus pais me educaram, e meus padrinhos complementaram essa educação. Eles também me deram roupas, comida, me levaram para a escola, me ensinaram a como me adaptar melhor à cidade”, disse, em tom de agradecimento.

Através dos novos ensinamentos do padrinho, cresceu em Jocelio uma grande vontade de trazer mudanças para a vida da mãe a partir dos seus estudos, “que me levava a dizer para minha mãe que eu me tornaria algo na vida para dar melhores condições para ela e dar orgulho para o nosso povo. Foi essa vontade que me deu forças para nunca desistir e continuar me dedicando aos estudos”, expressou. Assim, o garoto passou os dias estudando, recebendo aulas de reforço do padrinho, ao qual se refere como um “elixir de força” diante dos momentos de dificuldade.

Quando a situação financeira da família ficou muito apertada, Jocelio revela que não viu outra saída a não ser começar a trabalhar. Com o pai ausente, o índio, ainda no início da adolescência, saiu às ruas para trabalhar como vendedor ambulante, com o objetivo de auxiliar no sustento da casa dos padrinhos e conseguir alimentos para a mãe. Apesar do cansaço, Jocelio afirma que não perdia nenhum dia de aula, pois acreditava que a educação que recebia era sagrada, e que seria a única forma de mudar de vida.

“Na minha adolescência cheguei a vender geladinho na rua, para conseguir um pouco de dinheiro para não passar fome, e também ia para as feiras coletar as sobras, porque minha mãe ainda não conseguia comer produtos industrializados. Até hoje ela tem dificuldades para comer esse tipo de coisa diferente.”, revelou, fortemente emocionado. Jocelio recorda de um pé de manga que havia no quintal da casa em que morava, cuja sombra da árvore era local comum de conversas com sua mãe. Uma dessas conversas marcou a vida do índio, que também se emociona ao relembrar.

“Minha mãe, em uma das muitas conversas que tínhamos, me disse que sentia muita falta da sua antiga terra, do seu povo, e que até a terra que ela comia, nos dias de seca ou de enchentes na reserva, tinha mais sabor do que o sofrimento e a fome que ela passava na cidade. Aquilo me doía, partia meu coração ver minha mãe daquele jeito, e eu prometia a ela que não iria desistir, que faria todos os sacrifícios por nós dois”, narrou com voz de choro.

O advogado enfatiza que a mãe nunca se afastou das origens, e que o aconselhava a não se apegar totalmente às coisas novas que a cidade podia oferecer, para que suas raízes indígenas e as lembranças da sua terra pudessem ser conservadas. Um dos ensinamentos mais recorrentes da sua mãe era: “nós índios nascemos para pisar descalços no solo, você é fruto do meu ventre, te dei à luz para a terra, você pisou na terra como o meu povo”, recordou.

O RECIFE

Já formado em direito, Jocelio Bezerra encontrou na Almeida Advogados, em São Paulo, uma oportunidade para continuar colocando em prática todo o seu empenho. Em 2020, ele foi enviado para Pernambuco, para trabalhar na unidade recifense do escritório paulista. Depois de sair do escritório, conquistou outra grande oportunidade, dessa vez na Fleith Zilli Quadros e Souza, na área de Direito do Trabalho. O advogado indígena afirma ter muito apreço por Recife e não pretende sair da cidade tão cedo. 

“Tenho um carinho enorme por Recife e por Pernambuco. É um grande amor que sinto, e sou grato por todas as oportunidades que tive aqui, desde que cheguei. De lá pra cá, tenho crescido profissionalmente cada vez mais, e hoje tenho a oportunidade de desenvolver um bom trabalho na cidade”, expressou Jocelio.

O jovem advogado, que, além do português, também fala inglês, espanhol, arábe e hebraico, enfatiza que, mesmo vivendo em uma grande cidade, não existem requisitos para validar a etnia que carrega desde o nascimento.

“Não há nada de diferente em mim, sou índio porque nasci assim, por ter vindo da terra que eu vim, terra da qual nunca me esquecerei. Muitos me questionam, dizendo que eu saí muito cedo das raízes do meu povo, que deixei de ser índio quando saí da reserva, mas eu nunca deixarei de ser o que eu nasci para ser. Ser índio é ser capaz de preservar a memória dos ancestrais e seus costumes, é lutar pelos direitos dos que ainda vivem nas reservas, e ter saudades da natureza. É ter saudade de poder ser inocente”, concluiu.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Brasil descarta exigir passaporte sanitário
Erupção de vulcão na ilha de Java deixou 34 mortos
Manhã na Clube: entrevistas com Teresa Leitão (PT/PE), Almir Mattias e Renata Berenguer
Laboratório anuncia teste para diferenciar o coronavírus da gripe A e B
Grupo Diario de Pernambuco