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Sementes de Paulo Freire florescem e resistem nas artes

Publicado em: 19/09/2021 11:30 | Atualizado em: 19/09/2021 11:37

Farol da arte-educação brasileira, Ana Mae Barbosa teve sua vida e obra vastamente influenciada por Paulo Freire (Ana Mae Barbosa/Acervo Pessoal)
Farol da arte-educação brasileira, Ana Mae Barbosa teve sua vida e obra vastamente influenciada por Paulo Freire (Ana Mae Barbosa/Acervo Pessoal)
A pedagogia de Paulo Freire possui uma relação estreita e frutífera com a cultura e a arte. Ao observar sua trajetória e seu trabalho, observamos exemplos notórios disso, como as pinturas produzidas por Francisco Brennand para que ele pudesse usar em sua renomada experiência de alfabetização em Angicos, no Rio Grande do Norte, ou sua atuação intensa dentro do Movimento de Cultura Popular, ao lado de nomes como Hermilo Borba Filho, Ariano Suassuna e Abelardo da Hora. Em Freire, arte - sobretudo, a arte popular - e educação estão se retroalimentando para dar protagonismo aos sujeitos no caminho da conscientização e libertação. 

Em sua cidade natal, algumas dessas sementes artísticas que Freire ajudou a plantar ainda lutam para resistir. Uma delas está na Rua do Cupim, bairro das Graças, Zona Norte do Recife. Fundada em 1953, a Escolinha de Artes do Recife foi montada por Noemia Varela ao lado de nomes como Augusto Rodrigues, Ulisses Pernambucano, Francisco Brennand, Hermilo Borba Filho, Aloísio Magalhães, Hermilo Borba e Lula Cardoso Ayres e o casal Elza e Paulo Freire, a partir da experiência da Escolinha de Artes do Brasil, no Rio de Janeiro. Foi uma das pioneiras do Movimento das Escolinhas de Artes (MEA), que formou 124 iniciativas semelhantes no país. Na década de 1950, Freire foi presidente da instituição.

“O que dominava o pensamento da época no ensino das artes era a ideia de que crianças precisavam ser uma cópia dos adultos. Elas não eram livres, vistas como pensantes e produtoras de arte. Paulo Freire, Elza e Dona Noemia vão quebrar isso, dizer que a criança faz arte, sim, e que ela precisava de liberdade para isso, o que vamos chamar mais na frente de liberdade criadora”, explica Everson Melquíades, presidente da EAR há mais de uma década. Ele aponta que já nesses primeiros anos, o trabalho de Freire na Escolinha foi pioneiro na inclusão, nunca havendo separação entre crianças com e sem deficiência. (CONTINUA APÓS FOTO)
 
A Escolinha de Artes do Recife teve o próprio Paulo Freire como presidente na década de 1950 (Divulgação)
A Escolinha de Artes do Recife teve o próprio Paulo Freire como presidente na década de 1950 (Divulgação)
 

“São discussões que parecem bobagem, mas na época eram um escândalo. A arte-educação acaba bebendo muito de Paulo Freire a partir dessas experiências. A ideia de ler o mundo é fundamental para o ensino das artes, porque ler o mundo, com as crianças, pode começar por ler as obras de arte”, elabora Melquíades. O aprender arte no Brasil possui raízes fortes nas experiências em conjunto de Freire, Noemia e Elza Varela, pioneiros nesse sentido. 

E quem bem pode atestar isso é uma professora que certamente é uma das principais referências da história da arte-educação brasileira. Se hoje Ana Mae Barbosa é uma das professoras e pesquisadoras mais referenciadas neste campo, sua história na educação se liga diretamente ao Recife, não só com a Escolinha, mas diretamente com Freire e Varela. 

Mae Barbosa morava na capital pernambucana e queria estudar Direito, mas a avó não autorizava, pois acreditava que lugar decente para mulher trabalhar era apenas como professora. A contragosto, começou as aulas em um cursinho preparatório para prestar concurso de docência. Lá, foi pedida uma redação sobre o porquê de cada aluno querer ser professor. Ela escreveu uma dizendo que não queria e foi chamada para ter uma conversa com seu professor. Ele era Paulo Freire. 

“Cheguei mais cedo para conversarmos e em três horas, ele me mostrou que eu não tinha tido educação, mas sim repressão e me convenceu que a educação era libertação. Foi fantástico. No mesmo curso, ainda tive aulas com Noemia e me encantei pela arte. Tive uma experiência horrorosa na infância com desenho, tinha horror a ele. Mas veio um encanto com as aulas dela e segui ensinando”, relembra Ana Mae, ao Viver. Durante o período, ela já trabalhava em classes de alfabetização, usando arte, sendo orientada por Freire e tendo um alto grau de sucesso com as crianças aprendendo a ler e escrever. Ela se tornou professora da EAR, também seguiu pelo Direito, mas teve a arte-educação como caminho longevo.

Segundo Ana Mae, Paulo Freire sempre deu pistas de sua relação com a arte em sua obra. Ao voltar do exílio, sua primeira palestra foi na Semana de Arte e Ensino da USP, convidado pela professora que foi sua aluna. A partir de uma perspectiva freiriana, ela desenvolveu uma metodologia pioneira no ensino da arte no Brasil, a “Abordagem Triangular”, que sustenta o aprendizado por meio do conhecer a história, saber apreciar as obras e o próprio fazer artístico. 

“Apesar de citar pouco, porque tinha até medo de citar, essa metodologia é completamente contaminada por Paulo Freire. Essa sistemática parte dessa ideia dele que é contra o espontaneísmo, entendo que o fazer arte é cultural, vem da história e de outras relações, é autônomo. Também introduzo a leitura da obra de arte, que é baseada na leitura de mundo proposta por Freire”, explica. Antes de lançar seu livro contendo essa prática, ela pôde fazer experimentos por mais de 10 anos, incluindo uma sistematização com grupos de arte na cidade de São Paulo, possibilitada pelo então secretário de educação, Paulo Freire.


DIFICULDADES

Uma caminhada que tem as experiências dos Freires e de Varela como um ponto de partida importante, tanto para Ana, como para a Escolinha. Hoje a instituição funciona com cursos para crianças, jovens e idosos possibilitados pelo trabalho de docentes voluntários. O espaço, que abriga acervos importantes, como uma série de obras do Mestre Vitalino, livros únicos, instrumentos musicais e mais de 11 mil desenhos realizados por crianças desde sua fundação, hoje vê dificuldades para se manter. 

“Hoje, infelizmente, não temos apoio público, nem privado. Trabalhamos com algumas crianças que pagam mensalidade, mas a maioria é de bolsistas. Como manter esse lugar vivo? Ela é uma memória viva da arte e da arte-educação brasileira”, relata Everson, que diz também precisar tirar dinheiro do próprio bolso para manter as atividades da instituição. “As pessoas vêm, olham o lugar caidinho, precário e dizem que vão tentar ajudar. Mas vêm com ideias do que podemos fazer. Nós sabemos do que a escola precisa. A gente pede apoio, mas só recebe ideias”, lamenta o gestor. 



AS BASES DO TEATRO DO OPRIMIDO
 
O Núcleo de Experimentações em Teatro do Oprimido leva a busca freiriana pela conscientização e libertação para as artes cênica (William Oliveira/Divulgação)
O Núcleo de Experimentações em Teatro do Oprimido leva a busca freiriana pela conscientização e libertação para as artes cênica (William Oliveira/Divulgação)
 

Maria, moradora de Nazaré da Mata, subiu ao palco para interpretar um violento opressor pouco depois de voltar da delegacia na qual denunciou seu marido após anos de violências sofridas em casa. O espetáculo, livremente baseado em sua história, foi construído a partir de uma experiência teatral que é sistematizada nos anos 1970 e que, do seu título às suas práticas, é contagiada pelo pensamento de Paulo Freire. 

Trata-se do Teatro do Oprimido, concebido por Augusto Boal, e que tem esse nome justamente pela inspiração na Pedagogia do oprimido, de Freire. Boal sistematiza uma metodologia, que começa a ser concebida com seu Teatro Popular, que empregava durante sua experiência no Teatro de Arena, tornando o espectador como participante ativo das apresentações. 

É uma experiência que parte muito das ideias do educador pernambucano sobre o diálogo como ferramenta poderosa do aprendizado, em combate ao que chamava de “educação bancária”. Os alunos em Freire são os espectadores, ou melhor, espect-atores, em Boal, que também trazem ao jogo suas experiências de vida para possibilitar uma conscientização do seu lugar no mundo e o caminhar para uma libertação. 

Foi em uma oficina de Teatro do Oprimido que Maria trouxe à tona sua história de violência. A partir de seu relato, a peça foi montada, com a orientação do Núcleo de Experimentação em Teatro do Oprimido (NEXTO-PE), encabeçado pelos atores, pesquisadores e arte-educadores Andréa Veruska e Wagner Montenegro. Com duas décadas de estudos dentro dessa metodologia, eles tocam o projeto desde 2012, buscando descentralizar e interiorizar essas práticas, sobretudo com a realização de oficinas.

Ambos começaram a experiência em Teatro do Oprimido com o extinto grupo Pressão no Juízo, Veruska enquanto estava no começo da faculdade de Artes Cênicas, e Wagner ainda no ensino médio. “No Pressão no Juízo, fomos estudando como as teorias de Boal bebem em Paulo Freire. A gente foi lendo vários livros de Freire e vendo as semelhanças. A diferença era trocar o nome educação por teatro, mas a base era a mesma, de libertar os oprimidos, trabalhar as histórias de vida das pessoas, os conhecimentos delas, essa educação transversal”, explica Weruska. (CONTINUA APÓS FOTO)
 
Wagner Montenegro e Andréa Veruska realizam oficinas e outros projetos em Teatro do Oprimido desde 2012 (Divulgação)
Wagner Montenegro e Andréa Veruska realizam oficinas e outros projetos em Teatro do Oprimido desde 2012 (Divulgação)
 

Boal e Freire tinham uma relação de admiração um pelo outro e compartilharam diversos caminhos. Ambos tiveram que buscar exílio durante a ditadura, pela América Latina e Europa. Também foram influenciados por ideias do existencialismo, da fenomenologia e do marxismo, tinham a ação transformadora como grande objeto pedagógico, colocando os oprimidos em posição de protagonismo. Os dois morreram em 2 de maio - Freire em 1997, Boal em 2009.

Desde seu início, o NEXTO se mantém ativo e operante, promovendo oficinas semelhantes à que revelou a história de Maria - por sinal, a primeira que eles realizaram - também experimentando a linguagem em outros suportes, como a videoarte, como foi o último projeto do grupo, batizado de Sethico, no qual Wagner interpreta uma figura com uma máscara africana visita e cola lambe-lambes em pontos do Recife marcado por experiências racistas. 

Os próximos passos são continuar tanto as atividades de formação, com o projeto da Escola do Teatro do Oprimido, como essas iniciativas em outros suportes, incluindo um filme sobre masculinidades que está em processo de finalização. São contribuições artísticas que, assim como desejava Freire, visam a emancipação dos ainda milhões de oprimidos do país a partir da leitura do mundo, que tem a arte como um instrumento poderoso para tal. Incluindo voltar a dar força ao próprio conceito de oprimido, pois a partir da conscientização dele é que se vem a libertação freiriana.


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