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CENTENÁRIO PAULO FREIRE

Fragilidade democrática brasileira vem impedindo Paulo Freire de chegar às escolas

Publicado em: 19/09/2021 11:45 | Atualizado em: 19/09/2021 11:50

A educadora e pesquisadora freiriana Targélia de Souza explica os entraves que deixa Paulo Freire fora das escolas brasileiras (ARTE: Silvino/DP)
A educadora e pesquisadora freiriana Targélia de Souza explica os entraves que deixa Paulo Freire fora das escolas brasileiras (ARTE: Silvino/DP)
“O próprio Paulo Freire diria: ‘não celebre esse centenário para mim. Celebrem comigo’”, elabora Targélia de Souza Albuquerque. Comprometida com a educação desde os 14 anos de idade, seja em escolas, universidades, unidades de ressocialização ou movimentos sociais, a professora tem sua trajetória completamente atravessada por Paulo Freire, cuja vida e obra foi pesquisada intensamente por ela. Ela faz parte da Cátedra Paulo Freire e do Centro Paulo Freire de Estudos e Pesquisas desde sua fundação, em 1998. E não hesita em atestar que as escolas brasileiras ainda precisam abrir de fato as portas para as ideias e os trabalhos do patrono da educação brasileira, combatendo o discurso de que os problemas educacionais do país têm o centenário educador pernambucano como motivo. 


ENTREVISTA // Targélia de Souza, educadora
 
 (Nas salas de aula desde os 14 anos, a educadora e pesquisadora Targélia de Souza fala sobre ausência de Paulo Freire nas escolas)
Nas salas de aula desde os 14 anos, a educadora e pesquisadora Targélia de Souza fala sobre ausência de Paulo Freire nas escolas
 

Há um certo discurso reacionário que tenta imputar os problemas da educação no Brasil à uma suposta grande má influência das ideias de Paulo Freire nela. Mas defensores de Freire apontam que o problema é o contrário, que suas ideias ainda não entraram de fato nas escolas brasileiras. Como se dá essa não entrada?

A filosofia do projeto de Paulo Freire é vinculada a um projeto emancipatório de nação democrática. Ele propôs uma metodologia de alfabetização política, a educação como um ato político e considerando a dimensão pedagógica da política. Essa é uma experiência que aconteceu com 300 trabalhadores em Angicos, mas que não aconteceu ao acaso, veio sendo construída nos conselhos de pais e mestres, no Movimento de Cultura Popular, nos movimentos de educação de base. Não era apenas um método de alfabetização. Junto a outros intelectuais e sua esposa, Elza, ele agregou a esse método toda uma significação político-social 

Com o golpe militar, esse processo de conscientização, de criticidade, de enxergar o seu lugar no mundo e as contradições dele, desvelar as violências e opressão, passa a ameaçar a ordem instituída. O golpe de 1964 o considerou inimigo público, porque ele estava subvertendo a ordem, fazendo a pessoa desnaturalizar a violência. Por que Paulo Freire ameaça tanto? Porque você tem sempre um grupo contra e outro a favor, porque a política tem uma dimensão mais ampla do que a dimensão. A educação é um ato político dentro das relações políticas. Se há um grupo que defende que a escola seja acéfala, burocratizada, que produza robôs e pessoas a serem manipuladas, defendem que o conhecimento é neutro, que não se dá em um jogo de forças, é claro que vão ser contra Paulo Freire.  A ideia da educação enquanto um processo de compreensão da realidade e libertação apavora. 

Enquanto vários lugares do mundo publicavam Paulo Freire, a Pedagogia do Oprimido é um dos três livros mais lidos do mundo na área da educação, mas só em 2012 ele é reconhecido pelo Congresso como patrono da educação brasileira, por lei. É uma luta cotidiana. Paulo Freire está na escola? A culpa dos problemas do Brasil é porque as pessoas conhecem Paulo Freire? Eu posso dizer com segurança que apesar desse excesso de lives nesse centenário, mil discursos, o próprio Paulo Freire diria ‘não celebre esse centenário para mim. Celebrem comigo’. As pessoas precisam conhecer ele, mergulhar nos seus livros. Ele nunca chegou às escolas como proposta pedagógica radical, que radicaliza uma educação para qualidade social, ainda falta muito.


E, durante os anos, que estratégias ou artimanhas foram usadas para manter Paulo Freire fora das escolas?

Não existem artimanhas e estratégias descoladas de uma proposta de governo. Se você tem gestores que se alinham aos movimentos sociais, que estudam e reconhecem Paulo Freire, com certeza, mais facilmente, isso vai chegar à escola.  Agora outra coisa é ter uma governança que vai minando a valorização do ser humano, que desqualifica a ciência, fragmentando as políticas públicas para o avanço dela no país, sucateando a universidade. Há estratégias de minar escolas que estimulam a crítica, que trata o conhecimento com uma possibilidade de diálogo sobre a existência humana e a história. 

Para minar, nada melhor do que apresentar uma proposta de escolas militarizadas, porque digo aos pais que ao invés de estudar e dialogar com os filhos, coloca lá que a escola vai disciplinar, na escola do chicote. Mas essa escola do chicote burocratiza a mente, bloqueia, destitui o sujeito humano de sua capacidade mais profunda de reflexão crítica. 

Outra estratégia de minar é quando organizam as bases nacionais comuns curriculares que mais modelam os conteúdos e pré-determinam competências e habilidades e não trabalham com o sujeito na sua integridade, na sua capacidade de interagir, na sua capacidade ética. Aí vão proibir ou perseguir professores que discutam relações étnicas-raciais, em um momento que há seis mil indígenas em Brasília gritando e esbravejando que existem. É uma estratégia de negar o direito à existência humana, desqualificar o sujeito do direito à vida. Hoje, eu digo sem medo de errar, que nossa criança e nosso jovem, quando estão na escola e você fala de um feriado, todo mundo vibra. Mas a escola que Paulo Freire defende é desejada, é um locus de alegria, vibração e do bom combate entre ideias.


Então um dos principais fatores para que barram Paulo Freire de entrar nas escolas é justamente esses ciclos de democracia e autoritarismo no Brasil?

Democracia não se faz de uma hora pra outra. O próprio Paulo Freire discute isso, uma inexperiência democrática. Quando ele passa aproximadamente 16 anos no exílio, ao retornar, ele diz que voltou para ‘reaprender o Brasil’. Se você trouxer a história do Brasil, você tem poucos espaços de experiência democrática. Vêm os movimentos pioneiros de Escola Nova em 1932, o que acontece em 1937? O golpe getulista. Você até 1945, vai viver experiências antidemocráticas. Na época getulista, há uma relação forte com o nazifascismo, apesar do discurso trabalhista, que há algumas conquistas em relação ao que era antes no campo dos direitos. Vem depois um período que não é de trégua, de organização dos partidos e do trabalho de Paulo Freire. Vem 1964, o golpe militar, 20 anos de uma ditadura. 

Nós somos muito novos no processo de democracia. Paulo Freire chama a atenção para isso e fala sobre sentar à mesa com os divergentes, com os diferentes, com a diversidade, mas contra o antagônico. Juntando forças para combater, o bom combate, a justa raiva, principalmente diante das atrocidades. Haverá sempre um embate, agora estamos em um gravíssimo. A liberdade contra o autoritarismo. As loucuras e artimanhas da ultradireita para negar direitos dos cidadãos de se assumirem como sujeitos com voz e vez. Se eu congelo as mentes das crianças, eu manipulo os conteúdos e o processo libertário de construção do conhecimento e formo uma geração que não vai enxergar seu direito de ser livre. 


E quais suas perspectivas e visualização de meios possíveis para que Paulo Freire entre de fato nas escolas brasileiras do futuro? 

Resistência, meu amigo, muita resistência. Paulo Freire não dá conta sozinho da educação brasileira. Ele dizia ‘me reinventem’, dialoguem com outros autores. A gente tem que convidar professores e professoras para acolherem Paulo Freire e compartilharem sua história de vida e seus princípios com os estudantes. Realizando esse diálogo acolhedor, valorizando a cultura popular. É formar coletivos fortes, fortalecer as lutas dos trabalhadores da categoria. Em vez de ficar brigando por besteiras, disputando espaços de poder, é se aliar contra o inimigo comum. Juntar forças em prol de uma sociedade brasileira substancialmente democrática. 

Para isso, eu digo que se os professores e professoras aceitarem dialogar com Paulo Freire, ler profundamente, questionar e não aceitar tudo como verdade. Com essa possibilidade crítica, eu posso criar uma possibilidade de Brasil mais humano, fraterno e justo. Paulo Freire vive. A obra dele não persistiria até hoje se não tivesse força. Mas a obra dele sozinha não vai fazer nada. São pessoas, a partir desse legado, que poderão mudar as situações de opressão. 
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