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CRÍTICA

Crítica: Clint Eastwood vive calmaria do ícone cowboy em 'Cry Macho'

Publicado em: 17/09/2021 16:15 | Atualizado em: 17/09/2021 16:15

Com 91 anos, Clint Eastwood continua dirigindo e atuando em faroestes, mas com nova perspectiva (Foto: Warner Bros/Divulgação)
Com 91 anos, Clint Eastwood continua dirigindo e atuando em faroestes, mas com nova perspectiva (Foto: Warner Bros/Divulgação)
Sempre que Clint Eastwood surge com um novo projeto, existe uma certa comoção acerca de sua idade avançada e da possibilidade de estarmos presenciando sua última obra. Uma apreensão entendível, visto que o ator e diretor americano já está com 91 anos, mas frequente e protocolar, pois o cineasta talvez seja também uma das figuras mais ativas de Hollywood, tendo dirigido quase uma dezena de filmes desde 2010. O seu mais novo lançamento, Cry Macho: O Caminho para Redenção, chegou na última quinta-feira (16) com a mesma proposta que outros de seus trabalhos recentes: refletir sobre o passado e sobre o ícone que o próprio ator representa.

Na história, Clint interpreta Mike Milo, um premiado ex-peão de rodeio que se aposentou após uma fratura na coluna e problemas com bebida e remédios. Para sanar uma dívida, seu antigo chefe (Dwight Yoakam) envia Mike em uma viagem do Texas ao México para tirar o seu filho “Rafo” (Eduardo Minett) da guarda abusiva da mãe. O garoto, um aficionado por cowboys que vive no submundo da rinha de galo, torna-se um importante objeto de troca, alterando os planos da travessia.

Adaptado do livro homônimo de N. Richard Nash, o projeto passou pelas mãos de Clint pela primeira vez em 1988, quando ele, com 58 anos, considerou ser novo demais para o papel. Uma escolha um pouco questionável, já que o livro é justamente pensado para um homem na faixa dos 50 e a diferença etária não agrega novas questões à obra. Mike faz tudo o que um cinquentenário poderia fazer, atestando o vigor de Eastwood, mas deixando o personagem um tanto deslocado do seu universo.

Deixando de lado o diretor de grandes heróis americanos (Sully, Sniper Americano, O Caso Richard Jewell), Clint retorna às empreitadas do neo-western, ou faroeste contemporâneo, nos quais bandos são substituídos por gangues e as resoluções nem sempre acontecem por meio da violência. Na terceira parceria com o roteirista Nick Schenk, o longa se aproxima do ótimo Gran Torino (2008) e do competente A Mula (2018); contudo, sem a sensibilidade no desenvolvimento de personagem do primeiro, ou a tensão e a exploração de sua velhice como o último.


No lugar, há estrada o suficiente para um filme moroso, quase entediante. Se alguns pontos de virada apontam um crescimento da carga dramática do filme, eles logo são resolvidos e trazem a trama novamente para seu porto seguro, representado por uma cidade à beira de estrada. A aparente ausência de direção ou a falta de ímpeto na busca por objetivos é um reflexo direto de seu protagonista e intérprete, alguém que já atingiu o ápice no passado e por isso reconhece o valor da tranquilidade ocasional na vida e no trabalho. Como o diretor mesmo disse em entrevista recente ao Parade, a aposentadoria não está nos seus planos.

Consagrado nos anos 60 como um dos principais rostos dos Spaghetti Westerns (faroestes italianos) de Sergio Leone, Clint  foi responsável pela consolidação de um ideal bruto de masculinidade, com o qual ele vem tentando romper em suas obras mais recentes. Como um diretor que parece estar constantemente remediando seu próprio conservadorismo, a desconstrução é sempre pontual, expressa em atitudes sutis ou diálogos intimistas, mas que, apesar de pôr em xeque a perenidade do símbolo de heroísmo e a supervalorização de ser ‘macho’, nunca retira dele seu poder icônico.

Seja por saudosismo, hábito ou estilo próprio, Clint não se desprende das tendências do cinema clássico, o que está longe de ser um defeito. Cry Macho sabe domar todos os elementos que compõem uma boa história de redenção, ainda que seu entorno não esteja à altura do protagonista. Após décadas estrelando e dirigindo filmes, a calmaria se torna parte fundamental da maneira de trabalhar de Eastwood, sempre adicionando mais uma obra na prolífera bagagem de um dos maiores cowboys do cinema.

Confira o trailer de Cry Macho:


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