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PANDEMIA

Covid-19: variação do vírus se espalha por países europeus, aponta pesquisa

Publicado em: 30/10/2020 07:22

 (Foto: Philippe LOPEZ / AFP)
Foto: Philippe LOPEZ / AFP
Com a chegada do verão no Hemisfério Norte e o afrouxamento das medidas de isolamento social na Europa, uma nova variante do Sars-CoV-2 começou a circular pelo continente, que enfrenta, agora, a segunda onda da pandemia de Covid-19. De acordo com um estudo de cientistas suíços e espanhóis, a chamada 20A.EU1 já é a versão mais comum em alguns países europeus — na Inglaterra, 90% das sequências genéticas avaliadas são desse novo tipo do vírus.

A identificação da 20A.EU1 foi divulgada na plataforma de pré-publicação medRxiv. Segundo os autores, nada indica que a variante — uma das centenas de versões do Sars-CoV-2 prevalentes na Europa — é mais perigosa do que as demais. Porém, eles destacam que poucas foram tão eficazes quanto ela na disseminação pelo continente, o que, afirma o artigo, poderia ser explicado pelo intenso fluxo de viajantes desde julho.

Atualmente, a 20A.EU1, originária da Espanha, é responsável por 60% das sequências analisadas na Irlanda, e entre 30% e 40% das estudadas na Suíça e na Holanda. Ela também foi identificada na França, Bélgica, Alemanha, Itália, Letônia, Noruega e Suécia.

Os pesquisadores da Universidade da Basileia, na Suíça, e do consórcio SeqCovid-Espanha detectaram a variante ao analisar e comparar sequências genéticas do Sars-CoV-2 coletadas de pacientes europeus. O objetivo era rastrear a evolução e a disseminação do vírus. De acordo com o estudo, ela surgiu na Espanha em junho. Até onde se sabe, os primeiros afetados foram trabalhadores rurais no nordeste do país. A 20A.EU1 infectou as populações da área e rapidamente se expandiu pelo país, onde é responsável por 80% das amostras sequenciadas.

Relaxamento
Em nota, a principal autora do estudo, Emma Hodcroft, afirmou que a expansão da variante foi facilitada pelo afrouxamento das restrições de viagens e das medidas de distanciamento social. “É importante notar que, atualmente, não há evidências de que a propagação da nova variante seja devido a uma mutação que aumenta a transmissão ou impacta no resultado clínico da doença”, enfatiza.

O médico patologista Jorge Casseb, pesquisador e professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP), explica que variações em vírus são comuns e não significam, necessariamente, que ele está mais agressivo. “Toda vez em que há uma diversidade, tanto no hospedeiro quanto no vírus, ele é modificado. Isso pode aumentar a gravidade, ou acontecer o contrário.”

De acordo com Casseb, coautor de um artigo recente sobre os efeitos neurológicos do Sars-CoV-2, até agora nenhuma mutação do coronavírus mostrou-se mais perigosa do que outra. Ele também esclarece que variantes são sempre esperadas e, por isso, provavelmente não impactam nas vacinas atualmente pesquisadas, pois os cientistas escolhem regiões mais estáveis dos vírus ao desenvolver um imunizante.

Richard Neher, pesquisador da Universidade da Basileia e um dos principais autores do estudo, destaca que não se pode associar a 20A.EU1 ao aumento de casos que configura a segunda onda da pandemia na Europa. “Essa é uma interpretação errada. A 20A.EU1 não é a única variante circulando nas últimas semanas, nem nos últimos meses. Em países como Bélgica e França, que sofreram aumentos significativos de casos, as variantes prevalentes são outras.”

Iñaki Comas, coautor do artigo divulgado ontem na medRxiv e chefe do consórcio SeqCovid-Espanha, diz que o padrão de espalhamento da 20A.EU1 é semelhante ao que ocorreu na primavera espanhola, em março. “Uma variante, auxiliada por um evento inicial de superespalhamento, pode rapidamente se tornar predominante em todo o país”, diz.

Naquele momento, a D614G — versão diferente do vírus circulante da cidade chinesa Wuhan, considerada o local de início da pandemia — chegou à Europa e se espalhou com velocidade pelo continente. “Por enquanto, sabemos pouco sobre a 20A.EU1. Sabemos que foi exportada da Espanha para outros países europeus várias vezes. Mas não podemos dizer se ela está se espalhando por alguma vantagem evolutiva do vírus ou se a alta incidência na Espanha, seguida por uma disseminação por turistas, explica o rápido aumento dela em vários países”, afirma Comas. O pesquisador também diz que a 20A.EU1 foi identificada em 12 nações europeias, além de Hong Kong e Nova Zelândia.

Idas e vindas
A explicação mais provável para a velocidade de espalhamento da variante, segundo Tanja Stadler, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique e uma das principais pesquisadoras do estudo, foi o aumento da circulação de pessoas. Isso porque os sequenciamentos genéticos mostraram que a 20A.EU1 viajou entre os países europeus provavelmente centenas de vezes. “Podemos ver que o vírus foi introduzido várias vezes em vários países e muitas dessas introduções se espalharam pela população”, afirmou, em um comunicado. “Esse não é o caso de uma única introdução que simplesmente está dando certo.”

No artigo, os autores afirmam que o fato de a Espanha ser um destino de férias bastante popular na Europa provavelmente deu à variante a oportunidade de se disseminar entre turistas que, na volta, circularam com ela em seus países de origem. Por isso, os pesquisadores ressaltam a importância de governos avaliarem como os controles de fronteira e restrições de viagens durante o verão podem ter contribuído para a transmissão dessa nova versão do Sars-CoV-2.

“Fechamentos de fronteira de longo prazo e restrições severas de viagens não são viáveis ou desejáveis”, reconheceram os especialistas, ressalvando: “Mas, a partir da disseminação de 20A.EU1, parece claro que as medidas em vigor muitas vezes não foram suficientes para interromper a transmissão das variantes introduzidas no verão. Quando os países trabalharam arduamente para reduzir os casos de Sars-CoV-2 a números baixos, é fundamental identificar melhores maneiras de ‘abrir’ sem arriscar um aumento nos casos.”

Apesar de nada indicar que a propagação da 20A.EU1 seja responsável pela nova onda europeia, os pesquisadores estão concentrados em estudar, agora, como uma das mutações da variante, na proteína spike, pode impactar o fenótipo do vírus. Eles também esperam ter, em breve, acesso a dados que permitam avaliar se a versão tem alguma implicação clínica.

“É importante notar que, atualmente, não há evidências de que a propagação da nova variante seja devido a uma mutação que aumenta a transmissão ou impacta no resultado clínico da doença”, destaca  Emma Hodcroft, pesquisadora da Universidade da Basileia, na Suíça, e principal autora do estudo.
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