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ASSEMBLEIA GERAL

Discurso de defesa de Bolsonaro na ONU tem mais Trump e menos Olavo

Por: FolhaPress

Publicado em: 22/09/2020 14:36

 (Foto: AFP/Johannes EISELE)
Foto: AFP/Johannes EISELE
Jair Bolsonaro foi um bom discípulo de seu ídolo, Donald Trump, ao apresentar um previsível "outro lado" no discurso virtual na abertura dos debates da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Dificilmente convencerá alguém, assim como o americano falou para convertidos no discurso que transmitiu na sequência para um esvaziado plenário da ONU em Nova York.

Ciente de sua péssima imagem internacional, Bolsonaro resolveu acusar os outros. Quase nenhuma menção aos quase 140 mil mortos pela Covid-19 no seu país, mas sobraram dedos apontados para os governadores e o Judiciário, que deu autonomia a prefeituras e estados no manejo da crise.

Até a hidroxicloroquina, medicamento sem ação comprovada no tratamento do coronavírus e que se tornou ícone do modo Bolsonaro de negar a gravidade da pandemia, deu as caras.

Na defensiva, disse ser vítima de uma campanha de desinformação na questão ambiental. Assim como Trump disse que a China é a fonte de todo mal na questão da pandemia, Bolsonaro afirmou que a inveja internacional visando o agronegócio brasileiro está por trás das críticas que recebe na área.

Novamente, a realidade e o desmonte de instrumentos de controle de desmatamento e as críticas ao sistema de monitoramento de incêndios que costuma trazer más notícias para o governo foram ignoradas.

Houve uma acusação direta à ditadura de Nicolás Maduro quando afirmou que o derramamento de óleo na costa brasileira no ano passado teria sido criminoso e que teria envolvimento de produto venezuelano.

Não há provas disso, apesar de a narrativa ter virado verdade nos circuitos oficiais. Até que se prove em contrário, é uma suposição ou uma mentira.
Direitos humanos, um pedra no sapato do governo em várias áreas, foram tratados como alvo de tratamento exemplar no Brasil.

Nada de sobrenatural no texto lido, mas ele reflete uma nova realidade. Há um ano, em seu discurso inaugural na ONU, que durou o dobro do tempo, Bolsonaro apresentou-se ao mundo e embebeu sua fala com a verborragia ideológica de seu entorno mais radical.

Agora, com os discípulos de Olavo de Carvalho menos influentes no dia a dia da administração, a menção ao caráter conservador e cristão atribuído ao brasileiro virou só uma frase. O combate à intolerância religiosa e à "cristofobia", aceno usual à sua base evangélica, também ficou "en passant".

Aqui, a crítica feroz do grupo ao dito globalismo virou uma referência rápida à necessidade de reforma da Organização Mundial do Comércio. A aniversariante ONU, 75 anos em outubro, ganhou até uma jura de amor.

Em consonância com Trump e sua Guerra Fria 2.0, por outro lado, Bolsonaro disse que o 5G brasileiro está aberto a quem quiser, desde que respeite a soberania, a liberdade e a proteção de dados.

Para bom entendendor, é um recado à chinesa Huawei, a líder de infraestrutura de redes que os EUA querem ver fora dos leilões da nova tecnologia em todo mundo: a China é uma ditadura, e Washington afirma que suas redes são inseguras e servem para espionagem.

Ao fim, houve a genuflexão básica a Trump. Se os acordos entre Israel e os países árabes são de fato um trunfo que o americano pode usar, saudar o fantasioso plano de paz que a Casa Branca apresentou no começo do ano para a questão palestina como promissor não passa de bajulação.

Novamente, nada inesperado ou que deverá mudar a forma com que o mundo enxerga o Brasil neste momento. E ficará por isso, pois na cosmogonia de Bolsonaro, tudo que não é aplauso é fake news.
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