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PRESERVAÇÃO

Aos 90 anos, Terreiro Xambá, núcleo de preservação africana no Brasil, precisa de ajuda

Publicado em: 06/07/2020 13:08 | Atualizado em: 06/07/2020 13:18

Para marcar os 90 anos, foi lançada uma campanha de financiamento coletivo para reformar a estrutura física da casa (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP FOTO)
Para marcar os 90 anos, foi lançada uma campanha de financiamento coletivo para reformar a estrutura física da casa (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP FOTO)

Foi trocando passos de coco de roda que os pequenos moradores do bairro de Campo Grande, na Zona Norte do Recife, começaram a se familiarizar com a cultura e as tradições da nação xambá repassadas pelos pais e avós. Impregnado nas tradições orais das práticas, cantigas, roupas e músicas, o que viria a ser o Terreiro Xambá foi fundado ali, no dia 7 de junho de 1930, pela ialorixá Maria Oyá e pelo babalorixá Artur Rosendo Pereira, que se estabeleceu no local após fugir da repressão policial sofrida pelas casas de culto afrobrasileiro em Alagoas. No último mês, o terreiro, que carrega as raízes do povo xambá, originário da região ao norte dos Ashanti e limites da Nigéria com Camarões, celebrou 90 anos.

Para marcar a data, foi lançada uma campanha de financiamento coletivo para reformar a estrutura física da casa, localizada há anos no bairro de São Benedito, em Olinda, onde são realizados os encontros religiosos e culturais. Em maio, fortes chuvas abalaram o casarão da década de 1950. As doações, a partir de R$ 20, podem ser realizadas através da plataforma Abacashi, confira aqui. Para cada valor, há uma recompensa, entre discos, ilustrações, oficinas e ingressos para shows do Grupo Bongar. O risco de desabamento ameaça as permanentes práticas religiosas e a visitação às ações socioculturais e educativas promovidas pela comunidade. Muitas delas, inclusive, são base de sustentação financeira dos moradores e artistas da Xambá e estão paralisadas devido à pandemia.

De forma recreativa, a musicalidade e o coco de roda ajudaram a consolidar a nação xambá em Pernambuco a partir da união e troca entre as diferentes gerações. Era festa, diversão e celebração. Em 1938, ganhou caráter de resistência quando passou a ser usado para disfarçar os rituais religiosos que aconteciam dentro dos terreiros, como forma de se proteger da repressão e perseguição da época. Em 1964, a ialorixá Mãe Biu fez a festa de aniversário de 50 anos sem a roda de coco. No lugar, colocou uma radiola para tocar. Nesse dia, uma criança faleceu ao sofrer um acidente a caminho da festa. A tragédia levou Mãe Biu, no ano seguinte, a prometer sempre fazer uma festa de coco no dia 29 de junho.

Guitinho da Xambá, responsável pelo Centro Cultural Grupo Bongar (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP FOTO)
Guitinho da Xambá, responsável pelo Centro Cultural Grupo Bongar (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP FOTO)

“Um ano depois daquele dia, há 55 anos, celebramos o coco da Xambá aqui em nosso espaço. A prática deixou de ser uma brincadeira e ganhou data específica para ser celebrada”, conta Guitinho da Xambá, responsável pelo Centro Cultural Grupo Bongar, situado nos entornos do terreiro. Mesmo após o falecimento de Mãe Biu, em 1993, a tradição segue mantida. O coco de roda consta no calendário festivo de Olinda. Atrai frequentadores de todas as regiões brasileiras e de vários países. Neste ano, por conta do coronavírus, a 55ª edição do evento não aconteceu.

Xambá extrapolou as barreiras do terreiro. Criou raízes por toda a região, ocupou vias com desfiles e apresentações culturais, praças com contações de histórias e espaços públicos com cocos de roda. Xambá se fez quilombo urbano, denominado Portão do Gelo, expandiu-se por ruas e vias. Deu nome até para integração de transporte público. “Eu sempre vivi aqui em torno da Xambá, vivenciando cultura popular. Isso me fez criar o Grupo Bongar”, conta Guitinho. Fundado em 2001, o grupo vai além da música e atua como instrumento social, formando jovens e combatendo o racismo institucional.

“Com o Bongar, a gente fez da nossa música, o coco, um instrumento de transformação social. Uma arte promovida por núcleos negros e familiares”, afirma. Em 2016, foi inaugurado o Centro Cultural Grupo Bongar. Lá, são realizadas oficinas de percussão e dança popular, formações de audiovisual para jovens, aulas de capoeira, confecção de instrumentos, aulas-espetáculos, culinária de terreiro e palestras. Além do Bongar, foram formados outros três grupos musicais: Xamba das Yabás; Pirão Bateu, com jovens que mesclam instrumentos tradicionais e utensílios domésticos; e o Mixidinho, criado pela geração mais nova, com menos de 10 anos.

Impulsionado pelo Bongar, foi criado em 2002 o Memorial Severina Paraíso da Silva, onde estão reunidos objetos, documentos, indumentárias, fotos e artigos de jornais e revistas que preservam e divulgam a história do povo xambá. Outra forma de conservar a memória é a brincadeira do Boi Quebra Coco. Uma vez por mês, o boi visita uma casa da comunidade e escuta a história do morador sobre a origem de sua família, a formação do bairro e sua infância naquele local. Nas quartas-feiras, moradores e educadores se reúnem na Praça Tio Luiz para debater cultura africana. 

Contra a intolerância e a repressão policial
Oito anos após a fundação, o Terreiro Xambá foi alvo de uma violenta repressão. Policiais levaram imagens, objetos sagrados e conduziram a ialorixá para prestar depoimento na delegacia. Era 1938, o Brasil vivia a Era Vargas, sob a constituição de 1937, onde a liberdade religiosa previa manter “ordem pública e bons costumes”. Após o fechamento, o culto aos orixás seguiu, mas a portas fechadas. O espaço foi reaberto mais uma vez no bairro de Santa Clara, hoje Dois Unidos. No ano seguinte, fincou raízes onde funciona a atual sede.

Para o babalorixá Ivo, é através da religiosidade que o povo negro se empodera (Foto: Paulo Paiva/DP FOTO)
Para o babalorixá Ivo, é através da religiosidade que o povo negro se empodera (Foto: Paulo Paiva/DP FOTO)

Ele foi o único terreiro da tradição xambá que resistiu após a forte intolerância religiosa da década de 1930. Os demais se fundiram ou deixaram de existir. O episódio traumático é contado pela jornalista Marileide Alves no livro Povo xambá resiste - 80 anos de repressão aos terreiros em Pernambuco (Cepe Editora, 2018). O atual babalorixá Adeildo Paraíso da Silva, conhecido como Ivo de Xambá, lembra que, durante as perseguições policiais, escondia-se embaixo da cama.

“O terreiro era na minha casa, então eu já precisei me esconder embaixo da cama. E todo mês Mãe Biu tinha que pedir autorização na delegacia para continuar funcionando.” Para Ivo, é através da religiosidade que o povo negro se empodera. “É a partir da religião que se faz cultura, que se desenvolvem ações sociais. Nosso povo cresceu e se desenvolveu assim. Mas por que se aceita nossa cultura, mas não aceita nossa religião?”, questiona.

Legado Matriarcal
Xambá é um dos mais importantes núcleos de preservação das expressões culturais de origem africana no Brasil, sendo amplamente conhecido pelo forte trabalho cultural, principalmente com a sua música ancestral para os orixás, mestres do culto da jurema, coco de roda e música contemporânea. A origem do terreiro, seus membros e suas conquistas recentes, como o Memorial Severina Paraíso da Silva e o grupo Bongar, se entrelaçam à trajetória de luta, fé e liderança de mulheres importantes, como a ialorixá Maria Oyá, fundadora do terreiro, e Mãe Biu, que o dirigiu por 54 anos. Hoje é cuidado de perto pelas yabás, como Dona Glória.

Dona Glória é uma das grandes incentivadoras da manutenção do coco de roda entre os mais jovens (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP FOTO)
Dona Glória é uma das grandes incentivadoras da manutenção do coco de roda entre os mais jovens (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP FOTO)

“Sempre que vou ao terreiro, procuro organizar o que vai ser feito naquele dia. É sempre assim, se tem filhos de santo lá, nós (yabás) vamos conversar. Somos responsáveis pelo preparo das obrigações, dos rituais, cuidamos da casa, trocamos as cortinas e providenciamos as comidas”, explica Dona Glória. O mungunzá, prato típico e sagrado nos encontros, é preparado por ela e pelas demais yabás. “Já vamos ensinando as mulheres, como as minhas netas, que vão se tornando yabás. Essa resistência que nós temos, as mulheres negras da Xambá, é muito forte”, pontua.

Dona Glória é uma das grandes incentivadoras da manutenção do coco de roda entre os mais jovens e agora, nesse período de pandemia, sente os ref lexos da ausência dos encontros. “Não estamos fazendo as festas, nem os toques no momento. As crianças perguntam, cobram... Nós sentimos a necessidade, mas vamos levando como dá.” Apesar do decreto estadual que permite a abertura de igrejas, templos religiosos e terreiros, o Xambá não deve retomar o funcionamento no momento. “São muitas restrições, inclusive de idade. E a maioria das pessoas do terreiro são maiores de 60 anos. Também temos muitas crianças, então não vamos abrir enquanto não tiver uma vacina segura. Por ora, só estamos fazendo oferendas para orixás, que são feitas só pelos filhos de santo da casa.”
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