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Covid-19

Proximidade do inverno e pandemia podem aumentar vulnerabilidade em morros

Publicado em: 02/06/2020 17:02

População de Córrego da Areia, em Caetés I, ainda lembra do deslizamento ocorrido em 24 de julho de 2019. (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP.)
População de Córrego da Areia, em Caetés I, ainda lembra do deslizamento ocorrido em 24 de julho de 2019. (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP.)

Faltam menos de 20 dias para começar o período de inverno. Para quem mora em áreas vulneráveis, como morros ou palafitas, fica o receio de possíveis deslizamentos ou alagamentos. Desta vez, há um novo componente que pode potencializar os danos sociais nesta época do ano: o novo coronavírus. A Defesa Civil estadual (Codecipe) afirma ter criado novos protocolos para os municípios lidarem com possíveis desastres, mas alguns locais ainda tentam esquecer cenas testemunhadas há cerca de um ano, quando mais de 20 pessoas morreram na Região Metropolitana do Recife em desastres.

Um desses locais é o Córrego da Areia, em Caetés I, Abreu e Lima. Foi lá que quatro pessoas de uma mesma família morreram soterradas, na madrugada de 24 de julho de 2019. A destruição ainda é visível no local, que ainda tem muito barro e resquícios de casas destruídas. “Pelo que a gente já passou aqui, só Deus para ter misericórdia da gente”, conta o padeiro Harlyson Henrique, de 26 anos.

“Foi muito tenso aquele dia. É torcer para que não se repita”, acrescenta ele, que atualmente está sem trabalhar por causa da pandemia. O dinheiro do auxílio emergencial vem ajudando a lidar com a perda de renda. Até o momento, não se comenta por lá casos de infecção, mas a comunidade vem tomando os devidos cuidados: “A gente não vê muita gente na rua mais não. Todo mundo está se protegendo, usando máscara, álcool em gel”.

Criador de animais, o aposentado Cosme Filomeno da Costa, 80, também espera que novos deslizamentos não ocorram, assim como uma maior colaboração das pessoas para evitar a propagação do novo coronavírus. “Tem muitos que não se previnem. A gente vê no ônibus tudo lotado, gente sem máscara, que pode trazer coisa para os outros”, aponta.

Risco
O pesquisador Neison Freire, do Centro Integrado de Estudos Georreferenciados (Cieg) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) adverte que a combinação pode multiplicar os impactos sociais e econômicos. “Há uma previsão dos meteorologistas de que teremos um inverno com maior quantidade de chuvas, e isso poderá coincidir com a pandemia, que já é considerada um desastre”, explica.

“As Defesas Civis costumam acolher desabrigados e desalojados em pontos como escolas e ginásios. Como fazer uma aglomeração dessas, num período em que o risco de contágio se torna muito maior?”, questiona Neison. “Está em jogo um processo de construção social do risco, associado à pandemia. Os componentes de risco, como exposição ao perigo e vulnerabilidade social, são construídos pela sociedade. E é isso que faz com que essas populações sejam as mais impactadas por desastres”.

“Elas são as mais afetadas porque, devido a condição social, não podem fazer um home office ou só têm acesso ao serviço de saúde pública, justamente em um momento que ele está colapsando. São pessoas que dependem do estado, que está sobrecarregado”, diz.

Para ele, as soluções precisam ser tomadas de acordo com as características de cada localidade. “Ninguém melhor que os moradores para saber dos problemas que passam. É muito fácil dizer que ele está em uma área de risco. Mas ele vai para onde, se não tem outro lugar? As cidades precisam ser mais humanas, mais plurais”, analisa.
O padeiro Harlyson Henrique e o filho, Arthur: proteção em dose dupla. (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP.)
O padeiro Harlyson Henrique e o filho, Arthur: proteção em dose dupla. (Foto: Tarciso Augusto/Esp. DP.)

Análise caso a caso
O chefe da Casa Militar de Pernambuco, coronel Carlos José Viana, afirma que a Codecipe atualizou as orientações repassadas às Defesas Civis municipais. A recomendação é de encaminhar desabrigados para casas de parentes. No entanto, caso seja inevitável, terá de se montar abrigos emergenciais. “Com todo o cuidado para evitar aglomerações. Se uma escola tinha capacidade para 50, abrigar 25. Colocar camas ou colchões afastados a um metro e meio. Observar o distanciamento social como um todo. Além de reforçar a rotina de higienização, distribuir álcool e luvas”, exemplifica. 

O secretário executivo de Defesa Civil do Recife, coronel Cássio Sinomar, explica que as ações de prevenção a queda de morros estão sendo tocadas na capital, independente da pandemia. “O que mudou foram as formas de abordagem, que ficaram mais técnicas do que conversadas, mais objetivas. Além do cuidado para evitar contaminação das equipes e da população”, esclarece.

Cássio pondera que as respostas para possíveis problemas com desabrigados só podem ser dadas “analisando caso a caso”. “É muito de acordo com as consequências, com o tamanho do desastre. Não dá para trabalhar com suposição. Dependendo da situação, a gente vai se adequando. Faz tempo que espaços públicos não são utilizados como abrigo, porque a primeira recomendação da prefeitura é que a pessoa vá para a casa de um parente”, pontua. 

Já a Prefeitura de Abreu e Lima explica que é previsto o pagamento de um auxílio de R$ 300 para uma pessoa/família desabrigada, para que ela possa alugar um outro lugar e sair da área de risco. O cadastro fica sob responsabilidade da Secretaria de Assistência Social do município. “A equipe da Defesa Civil da cidade intensificou todo o trabalho preventivo de monitoramento nas principais áreas de riscos existentes no município, observando encostas, avaliando imóveis com rachaduras ou alguma situação que provo risco eminente”, afirma, em nota.
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