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SÃO PAULO

Colombianos no aeroporto de Guarulhos passam de 300 e situação é 'crítica'

Por: FolhaPress

Publicado em: 06/06/2020 15:02

O número de colombianos acampados no aeroporto de Guarulhos à espera de repatriação só aumenta e a situação se torna mais crítica a cada dia, segundo os relatos dos que estão dormindo no local. São 311 pessoas, de acordo com uma contagem feita por eles próprios. Há duas semanas, eram 180.

Há estudantes, turistas e, principalmente, imigrantes que vivem no Brasil e ficaram sem renda por causa da pandemia de coronavírus. Algumas famílias têm crianças. Eles estão em salas de espera no mezanino do terminal 2, e nos últimos dias foi aberto mais um espaço para os recém-chegados, totalizando quatro.

Todo dia chega mais gente -só em uma das salas, foram dez na última quinta (4). Alguns vieram após a circulação de notícias falsas sobre voos humanitários. Cada espaço tem líderes informais, que ajudam a organizar a distribuição de comida e os cuidados de saúde, entre outras funções. Eles dizem que estão chegando "ao limite."
 
A Colômbia declarou estado de emergência e as fronteiras estão fechadas ao menos até 31 de agosto, e a organização de voos só pode ser feita por autoridades do país. O grupo do aeroporto pede que o governo da Colômbia, por meio da embaixada, organize um voo humanitário de repatriação sem cobrança de passagens ou envie um avião da Força Aérea para buscá-los.

Até agora, os voos realizados foram pagos pelos passageiros e eles dizem não ter dinheiro para as passagens. Um avião saiu no dia 9 de maio e outro, no dia 14. Na última quinta (4) houve outro voo.

Nesta última viagem, dos mais de 250 passageiros, 18 eram do grupo dos que dormem no aeroporto. Os bilhetes deles foram pagos por uma vaquinha feita por colombianos que moram no Brasil, com prioridade para mães com crianças. Eles negociaram um preço reduzido com a companhia aérea –cerca de US$ 200 (R$ 1.000), quando o valor original era de US$ 470 (R$ 2.350).

"Conseguimos cerca de US$ 3.000 (R$ 14.800) e deu para custear as passagens de 17 pessoas de cinco famílias, além de um senhor diabético", diz a engenheira industrial Tatiana Pava, 33, uma das que organizaram a iniciativa. Ela não sabe se o grupo vai continuar com a arrecadação, mas está em contato também com o Rotary Club, que começou recentemente uma campanha para auxiliar nessas passagens.

Uma das que embarcaram no último voo foi a dona de casa Viviana Gallego, 35, com os filhos gêmeos de 6 anos. Ela veio visitar o marido, que mora no Brasil há um ano com a filha de 14, e tinha passagem de volta marcada para 24 de março, mas a viagem foi cancelada quando as fronteiras fecharam. Nesse meio tempo, o marido dela, que vendia roupas no centro de São Paulo, ficou sem ter como se sustentar. A família foi, então, para o aeroporto.

Depois de 20 dias dormindo lá, ela conseguiu a remarcação para viajar na quinta, mas o marido e a filha tiveram que ficar porque eles não têm dinheiro para custear a viagem. "É muito difícil estar nessa situação", disse, sem parar de chorar, na véspera do embarque. "Teremos que ir sem eles."

No dia 27 de maio, um procurador do Ministério Público Federal convocou uma reunião com outros órgãos, incluindo o consulado da Colômbia, a prefeitura de Guarulhos e o Ministério das Relações Exteriores, para discutir a situação. O resultado do encontro não foi divulgado. A GRU, que administra o aeroporto, afirmou que segue no aguardo das tratativas das representações da Colômbia no Brasil.

Para o coletivo de colombianos no Brasil Rueda la Palabra Paz, o governo colombiano tem "responsabilidade política de fazer um voo não comercial, já que se trata de uma situação humanitária".

"Pedir o pagamento da passagem de volta para pessoas que perderam seus trabalhos e as condições de sustento em razão da pandemia do novo coronavírus só agrava uma situação que já é delicada", diz uma mensagem escrita pelo grupo. "O governo não deve ser eximido da sua responsabilidade, sua resposta deve ser dada em concordância com a realidade que estamos vivendo."

Em nota, a embaixada e os consulados da Colômbia afirmam que "compreendem o drama humanitário que sofrem e vivem milhares de colombianos que desejam retornar à Colômbia e reitera o compromisso permanente de ajudar, acompanhar e orientar os colombianos que se encontram em território brasileiro". Informa também que mantém gestões para organizar mais voos com o mínimo valor possível para os passageiros.

Em email enviado à Folha anteriormente, a chancelaria colombiana afirmou que, entre abril e maio, consulados em quatro cidades brasileiras usaram um fundo de emergência do governo para dar ajuda de alimentação a 347 famílias vulneráveis, além de terem obtido outras doações para ajudar mais imigrantes.

O site da chancelaria informa que haverá outro voo saindo do Brasil em 10 de junho, mas não foi divulgado o valor dos bilhetes.

Enquanto isso, o grupo do aeroporto aguarda notícias sobre uma possível repatriação gratuita. Muitos vieram de outros estados do Brasil, caminhando parte do trajeto. Um deles chegou depois de dois dias de caminhada relatando não ter comido nada. Alguns já estão no local há cerca de um mês.

Uma parte do grupo decidiu juntar o dinheiro que tem para tentar negociar passagens mais baratas com a ajuda da embaixada, mas eles dizem que ainda não obtiveram resposta sobre a proposta.

"Estamos desesperados de nos ver nessa situação, aglomerados, dormindo uns em cima dos outros, expostos ao contágio do coronavírus. O estresse que estamos gerenciando é alto demais. Corremos o risco de haver discussões, problemas", diz o líder de um dos grupos, que pediu para não ser identificado na reportagem.

Assim como outros do grupo, ele se sustentava vendendo roupas como ambulante em feiras e na rua. "Todos temos uma história. A gente não consegue mais trabalhar por causa da pandemia, tinham alguns dormindo na rua."

Brasileiros e colombianos que vivem no Brasil estão ajudando o grupo com alimentos e produtos de higiene. Voluntários levam atividades para entreter as crianças, e, na última quarta (3), uma ONG levou os colombianos para tomar banho no estádio do Flamengo de Guarulhos, time da quarta divisão paulista. No aeroporto, não há chuveiros.

"Foi um ótimo banho. Nos deram café da manhã, as crianças puderam se distrair um pouquinho porque jogaram bola no campo", conta Monica Ramirez, 37. "Estamos nos mantendo graças a essas ajudas, que agradecemos muito. Mas estamos no limite. E continuamos aqui."
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