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Chromatica, de Lady Gaga, é o escapismo pop ideal para um mundo em ruínas

Publicado em: 29/05/2020 08:00 | Atualizado em: 01/06/2020 15:33

 (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação


Mentalize um herói entrando em uma nave e decolando em rumo ao espaço. Entre bilhões de estrelas coloridas existe um novo mundo, que por sua vez simboliza uma esperança. A cena sci-fi serve para começar a entender Chromatica, sexto álbum de estúdio da estadunidense Lady Gaga, lançado nesta sexta-feira (29). Enquanto a crise sanitária, econômica e política ameaça o mundo, a cantora oferece aos ouvintes uma obra em que a música pop, em casamento com uma estética visual pós-apocalíptica, se torna uma ferramenta de escapismo. A sonoridade do projeto passeia pelas pistas das décadas 1980 e 1990, com disco, europop e house music costurados em uma linguagem pop contemporânea, possibilitada em parte pelo produtor Bloodpop.

Lady Gaga já apostava em música dançante, eletrônica e cheias de referências vintages em sua chegada à indústria musical. Inicialmente, apostou em temáticas menos engajadas, mas com interessantes reflexões sobre a cultura de celebridades (The Fame, 2008). Apostou em um lado mais bizarro (The Fame Monster, 2009) e se tornou porta-voz da autoaceitação, fortalecendo uma geração de jovens (Born This Way, 2011). A carreira passou por esgotamentos de fórmulas (ARTPOP, 2013), o que estimulou experimentações com o jazz (Cheek to Cheek, 2014) e flertes com o country (Joanne, 2016). Recentemente, a cantora ganhou um Oscar de Melhor Canção Original pela trilha-sonora de Nasce uma estrela (2018).

Eis que chegamos no derradeiro ano de 2020. Chromatica é primeiro álbum assumidamente pop da cantora em sete anos. Nesse intervalo, o streaming se fortaleceu e as redes sociais se consolidaram como baluartes da "emoção pública" - termo do pesquisador Vincenzo Susca que sugere que a tradicional ideia de opinião pública vem sendo fragilizada por sentimentos coletivos na internet. Lady Gaga ainda não havia lançado um projeto pop nesse contexto, então a expectativa em torno do disco era como uma "prova de fogo”. Gaga conseguiu superar o obstáculo por entregar um projeto essencialmente comercial e esteticamente coeso, com musicalidades arrojadas e letras pontuais sobre fragilidades e ânsia por liberdade.

 (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação

A era do streaming - embora não isso não seja uma regra - tem estimulado faixas cada vez mais curtas, dispersas e perambulantes por playlists. Chromatica resgata o conceito do álbum temático, uma fórmula da música pop gestada desde o Sgt Pepper's lonely hearts club band (1967), dos Beatles. O disco tenta provocar uma imersão no planeta homônimo, com começo, meio e fim. A narrativa é dividida em três partes por "intervalos" de música clássica, que lembram trilhas sonoras cinematográficas. O disco também carrega tradições do “non-stop”, em que algumas músicas se conectam entre as transições. "Por favor, escutem do começo ao fim, não precisa colocar no aleatório. Essa é a minha verdadeira história", pediu a cantora no Twitter.

O imaginário sci-fi é escancarado em Alice, que abre o disco. Gaga desabafa sobre sua necessidade por escapismo, como o ouvinte que vive mais um dia da quarentena. "De saco cheio e cansada de acordar / Gritando a plenos pulmões / Pensando que devo ter me deixado para trás", canta. "Meu nome não é Alice / Mas eu vou continuar procurando / Vou continuar procurando pelo país das maravilhas", repete no refrão, com vocais e batidas grandiosas.

Rain on me, com Ariana Grande, é um hino de positividade para as pistas. As colaborações, inclusive, são certeiras. Com Ariana, a cantora flerta com um público mais jovem que não acompanhou muito bem o seu ápice - entre 2009 e 2012. Gaga se aproxima do imenso fandom do K-Pop ao colaborar com o fenômeno coreano BLACKPINK em Sour candy, uma divertida house music que funciona como boa experimentação para ambas artistas. Sine from above, colaboração com Elton John, também foge do senso comum por não ser uma balada de piano. Lady Gaga leva o septuagenário para a boate em uma música celestialmente eletrônica. "Quando eu era jovem, eu me sentia imortal / E nem um dia se passou sem uma luta / Eu vivi meus dias apenas pelas noites”, canta o britânico na bela composição.

 (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação


Também existe espaço para as fragilidades da cantora, que tem falado abertamente sobre problemas psicológicos. Na faixa 911 (número para chamadas de emergência nos EUA), a artista desabafa sobre a sua relação com os antipsicóticos, entre vozes robóticas e sintetizadores frenéticos. Replay, apesar de dançante, é uma metáfora para crises de ansiedade. "Todo santo dia, sim, eu cavo uma cova". Free women e Plastic doll são faixas sobre liberdade. "O que estou vendo é real, ou é apenas um sinal? / É tudo virtual? / Nós poderíamos ser amantes, mesmo que por esta noite / Poderíamos ser qualquer coisa que você quisesse”, canta Gaga, em um nítido zeitgeist, na forte Enigma. Nesse caldeirão tecnológico, Babylon é o regúgio para a cultura ballroom, evocando clubes recheados de voguing e drag queens.

Com tantos convites para dançar, é paradoxal que o Chromatica tenha chegado ao público quando parte considerável do Ocidente ainda se encontra em isolamento social devido à pandemia do coronavírus. Ao se tornar um álbum para ouvir em casa, essa experiência eletrônica é ressignificada. O processo de colocar fones de ouvido, fechar os olhos, sentir as batidas sintéticas e imaginar a pista de dança pode ser um procedimento para mentalizar a volta da normalidade com menos aflição. É um ritual semelhante ao daquele herói que embarcou na nave espacial, rumo a um novo mundo.

Ouça o álbum:


Confira os clipes da era Chromatica:


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