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Bandas denunciam censura da PM durante apresentação de música de Chico Science

Publicado em: 27/02/2020 10:32 | Atualizado em: 28/02/2020 16:07

Entre os artista que denunciaram a ação da PM está a banda Janete Saiu Para Beber.  (Foto: Reprodução/Instagram)
Entre os artista que denunciaram a ação da PM está a banda Janete Saiu Para Beber. (Foto: Reprodução/Instagram)
Duas bandas locais de rock escaladas em polos descentralizados do carnaval do Recife alegam terem sido impedidas por policiais militares de tocar músicas de Chico Science e Nação Zumbi. Uma canção, em particular, teria provocado intimidação por parte de PMs: Banditismo por uma questão de classe, do disco Afrociberdelia (1996), na qual um dos trechos diz “Em cada morro uma história diferente / que a polícia mata gente inocente”. A denúncia partiu do grupo Janete Saiu Para Beber.

A banda tocava na Rua do Apolo, no Bairro do Recife, na noite de segunda-feira, quando houve o atrito. “No início da apresentação, um grupo de policiais militares que estava circulando pela Rua do Apolo parou e ficou observando o show. Algumas das canções entoadas, como Sangue de bairro, Monólogo ao pé do ouvido e Banditismo por uma questão de classe, irritaram alguns dos policiais presentes, que foram questionar a produção do evento sobre o teor dessas músicas”, diz a nota emitida ontem pelo grupo. 

“Por conta disso, os policiais que estavam dialogando com os produtores ameaçaram prender o vocalista por desacato a autoridade e injúria e pediram o encerramento imediato da apresentação. Enquanto os policiais que permaneceram na frente da casa formaram uma barreira entre o palco e o público, intimidando todos os presentes”, relatou. Ao final do texto, a banda ainda relatou que o grupo Devotos e o cantor China passaram por situações parecidas - o primeiro no Polo Várzea, na terça-feira, o segundo na Lagoa do Araçá, também na terça.

 (Foto: Aline Sales/Divulgação)
Foto: Aline Sales/Divulgação
Em entrevista ao Viver, o vocalista do Devotos, Cannibal, afirmou que a banda sofreu ameaças por tocarem duas canções, sendo uma delas a de Chico Science. “Estávamos cantando Banditismo e depois De andada, do nosso último disco. Aí o nosso roadie veio no meu ouvido e disse que a produção mandou avisar que se cantasse mais uma ‘falando mal da polícia’, o show acabava”, comentou.

O cantor também afirma que a atmosfera política tem intensificado esse tipo de ação. "Para nós da Devotos, isso é coisa que acontece faz muito tempo. Sempre sofremos muito, desde o começo da banda quando a gente subia o Alto Zé do Pinho e na descida levava baculejo. Hoje em dia é mais orquestrada por conta do governo que temos. É um retrocesso que tá vindo aos poucos pela cultura, porque se você quer hostilizar um povo você começa pela cultural", completa.
 
O cantor China se pronunciou através de suas redes sociais, espaço em que denunciou a intervenção da polícia com o pretexto de controle dos horários. "Final apoteótico com a polícia tentando encerrar o meu show na Lagoa do Araçá. Não sabia que era a polícia que cuidava do crono dos shows do carnaval", criticou o cantor. Em entrevista o cantor explica que os shows estavam atrasados, então a PM pressionou para que a produção encurtasse a apresentação.

"Os policiais foram contidos pela minha empresária e produtora que não deixaram que invadissem a boca de cena. Caso contrário as coisas poderiam ser bem diferentes. A forma como tudo aconteceu foi desrespeitosa com meu trabalho, minha equipe e o público que foi lá assistir meu show", comentou.

Para ele, o episódio da intervenção da PM durante três shows no carnaval é parte de um panorama maior de ataque à cultura e aos artistas no Brasil. "São mais de 20 anos de carreira e nunca passei por uma situação dessas. Faço shows no carnaval de Recife há muito tempo e nunca vi nada parecido com isso. Estamos fazendo nosso trabalho, ocupando espaços públicos, contratados pela prefeitura para levar música e cultura para todos. O quão perigoso é isso?", questiona. O cantor pernambucano também ressalta como essas cenas mancham a imagem de um carnaval democrático e lamenta a situação. 

NOTA DA PM
Em nota, a PM afirma que a invasão do palco durante os shows se deu por motivos de horário. "A Polícia Militar informa que não há qualquer tipo de proibição à exibição de nenhuma música durante o Carnaval ou em qualquer época do ano. O efetivo somente orienta a suspensão de blocos que tenham estourado o tempo previsto para o desfile, por causa do planejamento operacional, que provoca o recolhimento da tropa após a dispersão dos foliões. Deixar que a festa prossiga sem a presença de policiais colocaria em risco a segurança de todos.

Os organizadores das agremiações que acreditem ter havido algum abuso deve procurar o Batalhão responsável ou mesmo a Corregedoria Geral, para formalizar uma queixa e possibilitar uma detalhada apuração de todos os fatos. A PMPE lembra, ainda, que o zelo com a segurança dos foliões se refletiu no Carnaval menos violento dos últimos 16 anos, com o número mais baixo de Crimes Violentos Letais Intencionais, entre a 0h do Sábado de Zé Pereira e a meia-noite da Terça-Feira de Carnaval".
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