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Caixinhas de som em espaços públicos abrem controvérsias sobre convívio, lazer e desigualdades

Publicado em: 20/01/2020 14:59

Caixa de som com pendrive no METROC. (Foto: Tarciso Augusto/DP Foto)
Caixa de som com pendrive no METROC. (Foto: Tarciso Augusto/DP Foto)

Ao percorrer por áreas mais movimentadas do Centro do Recife, é nítido observar que a popular caixinha de som, recarregável em tomadas e conectável por bluetooth, intensifica situações de trocas culturais e sociais indiretas no tecido urbano. Ainda na década de 1980, o sociólogo Bruno Latour apontava a importância de incluir elementos não-humanos em investigações de paradigmas em comunicação e cultura na sociedade. Quando um jovem chega em um local público e dá play em uma faixa de brega-funk (no Recife, gênero mais comum nesses casos), está obrigando todos presentes a ouvirem aquelas batidas eletrônicas frenéticas e, para o desgosto dos pudores alheios, acompanhadas por letras ambiguamente ou explicitamente sexuais. É quando a "música incomoda", abrindo debates sobre convívio, comportamento, lazer e desigualdades.

No Recife, as caixinhas já se tornaram indissociáveis dos vagões do metrô, transporte público que abriga um pandemônio sonoro nos horários de pico. Recentemente, o vídeo de uma mulher que discute com uma pregadora evangélica na Estação Coqueiral viralizou em todo o país. “Me deixa ouvir Beatles, me deixa ouvir Rolling Stones”, protesta a moça. É justamente entre ambulantes, neopentecostais e pedintes que as caixinhas disputam o protagonismo sonoro do ambiente, mesmo sendo proibidas pela legislação do METROTEC. Em um período de uma hora entre as estações Recife, Joana Bezerra e Afogados, a reportagem do Diario encontrou cinco rapazes com caixinhas. A música mais tocada era Bota bota, de Shevchenko e Elloco, MC Losk, 10g e MC Morena, que já é hit de verão nas periferias. “Vou ficando de quatro / Tu vem botando em mim e bota”, canta Morena.

Caixa de som com pendrive no METROC. (Foto: Tarciso Augusto/DP Foto)
Caixa de som com pendrive no METROC. (Foto: Tarciso Augusto/DP Foto)
Jonas, 26, foi um dos donos de caixinha na ocasião. “Tem gente que não gosta, mas também é importante saber que tem gente que gosta”, opina o rapaz, que é rapper e reside no bairro da Caxangá. “Eu acho que a música é uma parada livre, sabe? As pessoas devem consumir música onde querem consumir. O metrô, por exemplo, é um transporte que liga pessoas do subúrbio para o Centro, então não acho que incomode tanto. A grande maioria das pessoas que estão aqui, dependendo da faixa etária, curte brega-funk.” Bruno Ferreira, 37, mora em Cavaleiro, em Jaboatão, e discorda. “É uma perturbação. Eu já tentei ler livros durante as viagens, mas não consigo por conta do barulho. E tem dias que essas músicas altas nos pegam de mau humor. É estressante”, opina.

A MÚSICA QUE INCOMODA
Embora o som vibre no espaço como algo ordinário, existe quem leve a “música que incomoda” a sério. Felipe Trotta, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, dedicou três anos a uma pesquisa intitulada A música que incomoda: conflitos e tensões na experiência musical contemporânea. "Comecei a me interessar pelo tema quando estava pesquisando sobre gêneros populares que estavam ocupando o topo do mercado, como funk e forró. Eram músicas que falam direto com a periferia e pareciam refletir aquele momento social do país, dando voz para um grupo de pessoas. Nessa mesma época começaram a aparecer discursos discriminatórios travestidos de reclamações, que em geral diziam que essas músicas 'incomodavam'."

O estudo foi realizado no Rio de Janeiro, mais centrado no funk, e na Escócia, onde o acadêmico pôde entrevistar até argentinos, chineses e vietnamitas. "O incômodo com a música do outro é uma questão global. Existem vários aspectos atravessados quando temos uma experiência musical. A perspectiva da etnomusicologia enxerga a música como uma das formas dos humanos elaborarem perspectivas sobre vida, comportamento e ideal de coletividade. Quando selecionamos as músicas que desejamos, todas essas questões aparecem. E tudo isso entra em choque quando somos obrigados a ouvir músicas que não queremos. Isso gera um incômodo social, que extrapola a questão física do som", explica Trotta, que estará lançado em julho o livro Annoying music in everyday life, pela editora Bloomsbury.

Caixa de som com pendrive no METROC. (Foto: Tarciso Augusto/DP Foto)
Caixa de som com pendrive no METROC. (Foto: Tarciso Augusto/DP Foto)
Um outro aspecto ressaltado pelo pesquisador é a música enquanto ocupação de espaço. "O som é um deslocamento de ar que vaza e vai além do espaço físico. Quando você força o outro a ouvir uma música, existe uma intenção de poder, mas também de desdém. E aí surgem debates de tolerância e normas de convivência.” Para Trotta, no entanto, a chave da questão não é a criminalização, mas a compreensão de que esse fenômeno faz parte de um processo de dificuldade de entender o outro. "Muitas vezes a condenação aparece de forma unilateral, o que impede de compreender situações, quem são essas pessoas e suas motivações. É preciso ter cuidado com isso, sobretudo nesse momento de forte tensão social que vivemos".

A MÚSICA COMO VETOR
Thiago Soares, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, usou o fenômeno das caixinhas e do incômodo como um dos tópicos de uma pesquisa sobre a música brega no estado. O resultado está no livro Ninguém é perfeito e a vida é assim: A música brega em Pernambuco (Outros Críticos, 2017). "O Recife tem uma particularidade geográfica, pois é uma das capitais com menor tamanho territorial. A periferia está muito próxima das áreas nobres e do Centro. Tudo é junto e apinhado. Isso cria certa porosidade, com uma área se intercambiando em outra, tendo a música como um dos vetores", afirma.

Essa forte presença da música no tecido urbano também aparece como uma característica de um "sul global", que compreende cidades da América Latina, África e a parte da Ásia próxima da Linha do Equador. É como se a música estivesse sempre rompendo condutas sociais das cidades por uma série de relações de informalidade do mundo subdesenvolvido.

Caixa de som com pendrive no METROC. (Foto: Tarciso Augusto/DP Foto)
Caixa de som com pendrive no METROC. (Foto: Tarciso Augusto/DP Foto)
De acordo com o pesquisador, a questão primordial no debate das caixinhas e do incômodo é desigualdade social. "Se estamos falando de sons que incomodam, significa que existem assimetrias de poder. A própria desigualdade social passa por uma desigualdade sônica. O silêncio é uma commodity dos bairros nobres. Ele é agradável e caro, ligado a processos civilizatórios. No Recife, o Parque da Jaqueira é um exemplo de quando essa desigualdade se dá. É um bairro de classe média alta e a presença das caixinhas já criou atrito de convívio".

Para Soares, a música que incomoda teria a ver com a própria ideia do que é lazer e entretenimento. "Na pesquisa, notei que muitos donos de caixinhas acreditavam que estavam colocando alegria no ambiente. É uma ideia interessante pensar como a felicidade de um está atrelada a sensação de incômodo do outro. Existe uma linha tênue que separa alegria e violência em um mesmo ambiente. Isso é típico de uma sociedade desigual", conclui.
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